Aida Batista

As chuvas que antecederam abril

 

abril - milenio stadium

 

De tanto que nos ensinaram a calar. Quem é que ainda sabe falar? Alice Neto

 

 

A pergunta por demais conhecida, mas cuja paternidade tem gerado algumas dúvidas, era: “Onde estavas no 25 de Abril de 1974?” Nesse dia, eu estava em Angola, onde não havia ainda televisão, e ouvi a notícia na rádio. Já trabalhava e, como habitualmente, dirigi-me para a Escola Preparatória Manuel Cerveira Pereira, em Benguela, depois de deixar os meus filhos no infantário (o mais novo) e na primeira classe da escola pública (a mais velha).

Na minha Escola já todos falavam do assunto, mas as informações chegavam-nos indefinidas e contraditórias. Era visivelmente notória alguma preocupação nos rostos dos colegas, mas não tardou que tudo se esclarecesse e se ficasse a perceber o que realmente se passava em Portugal.

Nunca imaginei que, neste ano de 2022 e 48 anos depois, o meu 25 de Abril seria festejado na Guiné, e que o primeiro dia de aulas desta minha nova missão coincidisse com essa data. Vinha, portanto, preparada para explicar aos formandos o quanto essa data tinha significado, tanto para Portugal como para os países, hoje independentes, mas, na época, províncias ultramarinas de um Império que ia do Minho a Timor. Entre os materiais que trouxe na bagagem, onde não podia faltar um punhado de cravos vermelhos (de plástico, porque naturais não teriam aguentado a viagem), além de poemas e textos em prosa, não me esqueci do do vídeo da música“Grândola Morena”, interpretada por Zeca Afonso, nem da gravação do poema “Março” de Alice Neto, dito no dia da inauguração dos festejos das comemorações dos 50 anos que se completarão em 2024.
O curso que ia iniciar era frequentado por formandos, cujas habilitações académicas passavam pelo 12º ano e o Curso Técnico Profissional de Construção Civil. Em breve, partirão para Portugal, em regime de contrato de prestação de serviços, através de uma conceituada empresa portuguesa do ramo. (Um aparte: todos homens, como devem calcular! Engenheiras civis temos muitas, mas pedreiros, carpinteiros, eletricistas, ladrilhadores, canalizadores, ainda são profissões destinadas ao universo masculino, tanto em Portugal como na Guiné).

Para meu espanto e muita estranheza, desde os mais jovens até aos que já são detentores de empresas e trabalham por conta própria, nenhum deles tinha alguma vez ouvido falar do 25 de Abril, e de como foi através de um dos três “D” (Democratizar, Desenvolver e Descolonizar), como ideário político da revolução, que terminou a guerra colonial e as, então, colónias portuguesas se tornaram independentes, após vários anos de luta armada.
Foi de tal modo manifesto o interesse de todos os formandos por este tema, que não se cansaram de fazer perguntas e de colocar questões. É certo que o caso da Guiné-Bissau, durante o período que durou o conflito, ganhara contornos diferentes, porque, unilateralmente havia já declarado a sua independência em 1973, apesar de só ter sido reconhecida por Portugal, em setembro de 1974. Contudo, não pude deixar de me espantar que, tendo sido a Guiné o território onde a guerra foi mais cruel e sanguinária, a esta geração de guineenses não tenha sido explicado, nem valorizado o papel dos Capitães de Abril, bem como do MFA (Movimento das Forças Armadas), na revolução que os/nos tornou livres.

São as malhas que o Império tece, diria Fernando Pessoa, mas é com todas as malhas, umas mais perfeitas e outras menos, que se faz a urdidura da História de um país. O passado comum, estejamos ou não reconciliados com ele, não é feito de rascunhos que se possam rasurar ou apagar. Como um quadro de Caravaggio, foi assinado com o sangue derramado de ambas as partes e isso, por si, basta para o respeitarmos.

Aida Batista/MS

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