Aida Batista

As casas ouvem e falam

Habituei-me a ouvir, desde muito nova, minha mãe cantalorar vários genéros musicais, desde as modinhas beirãs à canção popular, e até o fado, enquanto realizava as tarefas domésticas, exceto ao domingo, que, respeitado como o Dia do Senhor, a casa era poupada às limpezas mais profundas. 

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É nas velhas casas, onde parece flutuar ainda a penumbra dourada do passado, que se recebe, mais perdurável e mais viva, a impressão da família e do lar. – Júlio Dantas

Oiço-lhe os versos de um dos fados “De quem eu gosto nem às paredes confesso”. As letras das canções, tal como as orações, são repetidas sem nos apercebermos do que dizemos. Mas estou segura de que, no caso deste, quereria dizer que nunca deveríamos expor as nossas intimidades a ninguém. Não foi, certamente, esta canção que moldou o meu caráter, mas a verdade é que, ainda hoje, há uma reserva de privacidade que guardo só para mim.

Depois, ligado também a paredes, chegou-me o provérbio “As paredes têm ouvidos”, o que só vinha reforçar a letra da canção. Se as paredes tinham ouvidos, era por isso que não podíamos fazer confissões a quem as não pudesse guardar. À medida que fui crescendo, lembro-me de estar a conversar sobre temas, absolutamente inocentes, e uma de nós interromper com um “chiuuu”, acompanhado do indicador na vertical, frente à boca. Ou seja, significava que tínhamos de falar baixo, porque poderia haver alguém a escutar-nos.

Diz-se que a expressão surgiu no séc. XVI, por causa de Catarina de Médicis. Segundo consta, terá mandado instalar tubos metálicos nas paredes do Louvre para ouvir as conversas travadas nos salões, que, como se sabe, era por onde passavam todas as intrigas palacianas. O que começou como um processo bastante rudimentar de espionagem manteve-se até aos nossos dias, por força da sabedoria popular, que soube dar-lhe novas roupagens em diferentes idiomas e espalhá-las pelo mundo. Hoje, com um capital de experiência feito, aprendi a descodificar e a dar novos sentidos a certas frases. As paredes continuam a ouvir, mas, como fronteiras dos espaços que habitamos, também falam, porque são as guardiãs das vozes de todos os que por lá passaram. E eu passei por muitas e, de todas elas, exceto de uma, guardo memórias – minhas e dos familiares com quem vivi e convivi.

Meu pai contava que minha mãe, eu e minha irmã, quando fomos ter com ele, começámos por habitar um quarto alugado, onde ele já vivia. Imagino que, sendo eu e minha irmã tão pequenas, devamos ter ficado todos na mesma divisão. Essas paredes nada me contam, porque nelas vivi uma idade sem memórias, e nunca perguntei a meu pai qual era, embora tivesse uma ideia vaga da zona onde ficava. Fruto do  acaso ou não, a última casa de meu pai (das onze que construiu), localizava-se bem perto dessa área da cidade, agora descaraterizada, como se, antes de partir, tivesse de fechar o círculo da vida africana, voltando ao lugar por onde começara. De todas as outras tenho memórias muito vivas. Com elas estabeleço diálogos com meus pais em pensamento, porque fui a única que passei por todas elas. Nas paredes ficaram grafitados os seus sonhos, que aos poucos se foram materializando, para dar corpo à vontade maior que os movia: deixar aos filhos um futuro bem diferente daquele que eles tinham tido. 

Nas lojas de decoração, encontramos com frequência objetos de vários formatos (almofadas, quadros, pingentes, pratos de parede, peças de cerâmica) com a estafada frase: “Lar é onde está o coração”. 

A mim, vem-me à ideia a obra de Eduardo Bettencourt Pinto, intitulada  “A Casa das Rugas”. Porque se o interior da casa (qualquer que seja a que tenhamos habitado) reflete o que somos por dentro – a nossa alma -,  então, o lar será sempre o espaço onde nos sentimos carinhosamente abraçados pelas pregas das rugas do tempo que tudo guardam.

Aida Batista/MS

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