Aida Batista

Após as “ileições”

Créditos: DR. 

A linguagem fez-se para nos servirmos dela, não para que a sirvamos a ela

Fernando Pessoa

Não, caros leitores, não foi engano meu, foi mesmo assim que quis escrever a palavra eleições, com “i” tal como se pronuncia e, ao longo do meu texto, explicarei a razão da minha opção. Ao contrário do que possam pensar, não vou abordar o ato eleitoral do passado domingo, mas um tema que se prende com a fonética da nossa língua.

O Português integra o conjunto das línguas indo-europeias que tiveram origem na evolução do latim. No entanto, tal como o falamos hoje, provém do latim popular, ou seja, aquele que era falado pelas classes populares. Quer isto dizer que as línguas não nascem a partir de diretivas de gabinetes de gramáticos, mas da liberdade dos seus falantes. Os gramáticos limitam-se, a partir do que já existe, a estabelecer a norma padrão e os vários níveis em que a utilizamos, tanto na língua falada como na escrita, e que aprendemos a teorizar quando iniciamos a nossa escolaridade.

O facto de nos ter chegado por via popular não exclui a existência de palavras eruditas a que recorremos quando usamos uma linguagem mais cuidada e elaborada. Sem entrar em detalhes, recorro a um exemplo bem conhecido – a Ave Maria. Há quem diga “Ave Maria cheia de graça” ou “Ave Maria plena de graça”. No primeiro, temos a palavra popular e, na segunda, a que entrou por via erudita. Daqui se conclui que é ao povo que cabe a responsabilidade de padronizar palavras e expressões que, de tão repetidas, acabam por ficar no ouvido e, mais tarde, fazerem parte do vocabulário socialmente aceite. É então que entram os gramáticos e as incluem num léxico padronizado. Em relação à pronúncia das palavras, passa-se exatamente o mesmo, apesar de as regras estabelecerem normas que são frequentemente violadas. 

Como na minha carreira docente, fui professora de língua portuguesa no estrangeiro, acontece, com certa regularidade, receber telefonemas de amigos a pedir que lhes tire uma ou outra dúvida. Esta semana, a dúvida foi sobre a pronúncia da palavra “egrégios”, que todos os leitores conhecem do nosso hino nacional, cujos versos aqui evoco: “Dos teus egrégios avós/ Que há de guiar-te à vitória”. Perguntavam-me se deveríamos pronunciar “êgrégios” ou “igrégios”, ou seja, se o “e” inicial tinha o valor de “ê” ou de “i”. Respondi socorrendo-me da regra: “Pronuncia-se “i”, o “e” inicial não acentuado, que constitui sílaba no início de palavra, assim como na conjunção “e”, segundo o exemplo “tu e ela”. Por isso, em palavras como: elegante, elemento, educação, economia, elefante, exame, emérito, eleição, etc., o “e” inicial lê-se sempre “i” – “ilegante”, “ilemento”, “iducação”, “iconomia”, “ilefante”, “ixame”, “imérito”, “ileição”. 

Considerando que o nosso “h” inicial é uma consoante muda, ou seja, não se pronuncia, a mesma regra se aplica às palavras começadas por “e” átono antecedido de “h”. Assim, “helicóptero”, “herói”, e tantas outras, devem ler-se “hilicóptero” e “hirói”.

No entanto, a maioria dos nossos locutores – quer da rádio quer da televisão – cada vez, com mais frequência, pronuncia estas palavras como se começassem por um “e” fechado, ou seja, “ê”. Convido-vos a estarem atentos e verão se tenho ou não razão. Seria até um bom exercício terem um papel e um lápis à mão para anotarem todas as vezes que isso acontece. Além da atenção exigida, servirá de entretenimento.

Que irá acontecer, então? De tanto se pronunciar desta forma, tempo virá em que será formalmente aceite e fará parte da norma, que evolui de acordo com as práticas com que crescemos.  Como diria Vasco Graça Moura sobre a nossa língua “não és mais que as outras, mas és nossa, e crescemos em ti”. É crescendo nela e com ela que assistimos a todas estas transformações, independentemente do resultado das “ileições” ou “êleições”, como agora se diz.

Aida Batista/MS

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