Aida BatistaOpinião

Anúncios de primavera

Credito: S´rgio Morato

Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira.

Desconhecido

Sempre que em Portugal irrompem os sinais da primavera, lembro-me de Toronto.

Da cidade que deixei e aquela a que regresso em namoros fugazes de ocasião, onde registo uma ou outra alteração de pormenor, sem que, no entanto, a sinta desfigurada; dos espaços anteriormente percorridos nos automatismos que os vínculos laborais diariamente me exigiam; dos amigos mais íntimos, para quem não tenho mãos a medir para satisfazer convites e solicitações, prova inequívoca de que as amizades fortes não se desfazem com a ausência; dos rostos que continuam a habitar a galeria dos conhecidos, mesmo que o contacto nunca tenha passado de um cerimonioso cumprimento ou aperto de mão; dos eventos que continuam a celebrar a pujança de uma comunidade, onde novos elementos despontam para dar continuidade aos valores já consolidados; dos cafés e das pastelarias, num roteiro de sons, cheiros e sabores, a lembrar estabelecimentos de bairro fixados no tempo; dos jornais, ainda que vestidos de novos nomes, a distribuir notícias internacionais e locais, calendários das jornadas de futebol sempre atualizadas, receitas e anúncios que, num passado recente, me fizeram perceber um mundo que não conhecia; de uma familiaridade de linguagens a lembrar-me que acabara de mergulhar no “little Portugal” – perímetro do cruzamento da Dundas e College com a Ossington.

Não há dúvida de que é nos países sujeitos ao rigor dos gélidos invernos que a natureza é muito mais eloquente nos anúncios da primavera. Em Portugal, por exemplo, onde é possível em dezembro ver o vermelho das rosas nos jardins, há muito que os rebentos da nova estação passaram de galhos a ramos, desabrochando em flor, para em menos de nada entrarem no ciclo dos frutos.

As transformações vão-se fazendo muito mais cedo, ao longo de meses, pelo que não nos é possível experimentar sensações tão fortes como as que se vivem em Toronto. Destaque-se o culto dos jardins e de como toda a cidade se volta para a terra, mesmo quando confinada a uma pequena nesga a disputar espaço com o “drive way”. E as hortas, igualmente bem tratadas, à espera que rompam do solo as hastes dos tomateiros, dos pepinos, dos pimentos, do feijão verde, das ervilhas, para que as estacas os orientem no caminho para o alto. Mais rasteiras, ficam as alfaces e outras verduras, a comporem o ramalhete do ecologicamente equilibrado e saudável.

Caminhar pelas áreas residenciais de Toronto, nesta altura do ano, é assistir ao chamamento que transforma cada citadino num camponês. Na forma como esgravata a terra e a revigora nas braçadas com que a envolve e revolve, alinha os canteiros, delineia sebes, semeia e planta, ajeita um vaso ou acaricia uma folha. Em cada gesto, um diálogo permanente com a força telúrica da natureza, onde não faltam as pedras a estabelecer a harmonia que se quer completa. Por toda a cidade, na parte exterior das superfícies comerciais, há estufas a céu aberto: vasos e mais vasos de árvores em miniatura, plantas, flores e ramos à espera dos clientes que trazem o perfume da primavera à flor da pele. Nos corpos vestidos de roupas mais leves – ombros, braços e pernas à mostra -, depois da longa clausura imposta pelo frio.

É um ritual que, com maior ou menor intensidade, todos cumprem. E todos falam desta atividade como se a energia da terra lhes corresse como seiva pelas veias. Nota-se na postura mais direita do corpo, na ligeireza do caminhar, no sorriso que passa a morar no rosto dos que diariamente se cruzam para iniciar mais um quotidiano de trabalho, no movimento das ruas transformadas em solários, onde muitos buscam a energia luminosa para, à semelhança das plantas, a transformarem em energia química.

Os raios de sol são a batuta que cada ano dita uma renovada coreografia da Sagração da Primavera!

Aida Batista/MS

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