Aida Batista

Aniversário nas nuvens

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Crédito: DR.

Morreste! Antes de mim, seguindo a lei natural em que os mais velhos partem primeiro. Morrer é o verbo que todos temos de conjugar, assim que ouvimos a primeira flexão verbal – nasceu – dita por terceiros, porque dela não nos lembramos;  faz parte do enxoval com que nascemos, mudando apenas a medida do tempo que levaremos a estreá-lo. Quando tal acontece, desde crianças que nos habituamos a ouvir: “foi para o céu” – a morada que nos estava destinada, independentemente daquela que habitáramos em vida -, aquela abóbada azul para onde levantávamos a cabeça, sem nunca mais os vermos.

Explicavam-nos que o corpo ficava na terra e só as almas para lá iam. Sem sabermos com seriam as almas, olhávamos para o movimento e formatos das nuvens, numa tentativa vã de que alguma se parecesse com um dos nossos. Mas estas quase sempre nos devolviam formas de animais, em que  as ovelhas dominavam sobre todas as outras. Para satisfazerem as nossas inocentes perguntas, respondiam-nos que as almas se mantinham invísíveis para sempre. Tudo isto me fazia alguma confusão, interrogando-me como nos iríamos reconhecer quando chegasse o dia de nos reencontrarmos.

Como não as víamos durante o dia, explicavam-nos que, à noite, eram as estrelas que aqui e ali, ponteavam o firmamento. O enigma mantinha-se: qual delas era um dos nossos? Que não importava, respondiam-nos, porque as almas se manifestavam através do brilho da luz que era de todos. E não importva mesmo, porque anularia toda a auréola poética que circundava cada estrela. Mas entristeciam-nos as noites de breu, aquelas que impediam que as nossas estrelas atravessassem a escuridão em que se transformara a abóbada celeste.

Nos livros de contos de princesas e fadas, os sapos transformavam-se em príncipes depois do beijo da amada. Nesta mistura de ilusão e fantasia, aprendemos que o nosso beijo de despedida criava mais uma estrela para aliviar a negritude dos dias de luto.

Um dia, já crescidos, percebemos que o saldo do que se ganha é diretamente proporcional à inocência perdida quando, ano após ano, vão ruindo os mitos de que havia sido construído todo o nosso universo infantil. E a realidade caiu-nos no colo, nua da poesia e da beleza com que durante anos a vestíramos. Neste momento, dia do teu aniversário, cruzo os céus presa no assento de um avião, mas liberta das crenças que me alimentaram enquanto fui criança. Sei que a fuselagem não tocará em nenhuma das almas que, numa harmonia celestial, aguardam pelos que se lhes irão juntar.  Os mitos com que cresci há muito se estilhaçaram, mas um deles tenho como seguro. Encostada ao vidro da janela do avião, olho para os nuvens e sei que lá estás porque te vejo nas memórias dos tempos que partilhámos. E são tantas quantas as horas de voo que dura a viagem. Umas serão claras e suaves, como a flor do algodão de que parecem ser feitas; outras, cinzentas e muito escuras, assinalam momentos de borrasca que, de tão inesperados, não soubemos controlar, deixando as marcas das mágoas que se prolongavam no tempo.

A irregularidade das nuvens, feitas de altos e baixos, é também a metáfora da vida por onde, a trote ou a galope, cavalgámos quotidianos do nosso passado comum. A memória que, além de seletiva é também afetiva, tudo faz para não guardar os dias mais escuros, mas deixar vir ao de cima a trama das vivências da harmonia partilhada entre familiares e amigos.

A peneira com que olho para o passado mantém o movimento compassado que deixa passar todas as lembranças. No crivo, ficaram as mais felizes, aquelas com que te presenteio em dia de aniversário.

Aida Batista/MS

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