Aida Batista

Ana Fontes: Uma vida suspensa de muitas pontes

É preciso partir,
é preciso ficar.
(Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas, 2002)

 

De 2 a 6, estive na Ilha de Santa Maria, Açores, para assistir ao 39º Colóquio da Lusofonia, organizado por Chrys Chrystello. Há muitos anos que não voltava a esta ilha e, assim que o avião aterrou, não pude deixar de recordar a minha última vez, em casa de Ana Fontes, uma artesã e poeta popular mariense falecida o ano passado, viúva de marido e de ambições.

Descobri-a na Gare Marítima de Alcântara, numa vitrina da Exposição Traços da Diáspora Portuguesa (2007), organizada pelo Museu da Presidência da República e Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. Tinha o corpo de um caderno manuscrito, de braços abertos à leitura, com uma etiqueta que prontamente copiei para o meu bloco de apontamentos “Diário pessoal de Ana Fontes de 68 anos, natural de Sta Maria, Açores, no qual descreve pormenorizadamente a viagem que realizou nos anos 90 aos E.U.A., país onde tem 3 gerações de família emigrada (84 membros). Col. Particular de Ana Fontes, Açores, 14 de Janeiro de 1999”.

A curiosidade de penetrar nas entranhas daquele diário nunca mais me largou. Comecei por telefonar para a Câmara Municipal de Vila do Porto que, por pistas que se foram desenrolando como fios de um novelo, me fizeram chegar a José de Sousa, que nos pôs a falar por telefone.

Quando mostrei vontade de trabalhar o seu diário, Ana Fontes manteve-se num registo familiar sedento de muita conversa. Fiquei perplexa quando soube que havia já escrito mais de 21 cadernos, com diversos títulos, tamanhos e temáticas variadas, datados de 1985 a 2005.

Ana Fontes viveu sempre em Santa Bárbara, exceto num curto período em que esteve emigrada no Canadá, para se juntar ao marido com quem casou por procuração. Mulher de muitos ofícios, foi como poeta popular e artesã que se destacou, tendo confecionado e reunido mais de 600 peças, um valioso património cultural e artístico nunca reconhecido.

Segundo o Professor João Leal, a vida de Ana Fontes pode dividir-se em três etapas: a) de completa entrega à Igreja e aos rituais da religião; b) o casamento e o período de emigração; c) o regresso à ilha, vivido no isolamento de uma casa afastada do povoado.

Nasceu numa família numerosa, pai vinhateiro e mãe doméstica, de onze filhos, tendo dois morrido muito novos. Por isso, conviveu apenas com os oito irmãos (quatro rapazes e quatro raparigas). Refletindo sobre o seu nome, confessa: “O meu nome é simples sim/ Nele não há rios nem pontes/ Nada custa dizer assim/ É só Ana Soares Fontes.”

Após ter lido muitas das centenas de quadras dos seus cadernos, esta foi a que me deu o mote para o título desta crónica: “Ana Fontes: Uma vida suspensa de muitas pontes.” Na verdade, o apelido Fontes foi aqui premonitório e, ao contrário do que diz, dele brotaram rios de sonhos suspensos das pontes que a sua imaginação desenhou, mas que a pobreza do berço não permitiu que os arcos se fechassem, facultando-lhe travessias para além do horizonte fechado da sua ilha.

Numa época em que se dava a primazia aos homens, Ana Fontes não teve possibilidade de obter um diploma, porque faltou aos pais a quantia de 62$50 para que fizesse o exame da antiga 4ª classe. Muitas das suas quadras expressam o inconformismo dessa injustiça. “Estive dois anos na escola/ Cheguei à 4ª classe/ O governo não dava esmola/ Só fazia quem pagasse.”

Ana Fontes partiu e ficou, e viveu sempre esta indefinição de partir e ficar – do lado de cá, a realidade inconformada; do lado de lá, o sonho por cumprir. Aninhas, a menina da ilha, nunca desistiu, apenas enterrou os pilares da resignação no espaço intermédio do tabuleiro por onde viaja com os porões a abarrotar de memórias para percorrer mundos, onde embarca e desembarca ao ritmo das marés de quadras que tudo trazem.

Aida Batista/MS

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