A semântica das palavras

A Com as mãos se faz a paz e a guerra.
Com as mãos tudo se faz e desfaz.
Manuel Alegre
Nos desabafos com amigos e conhecidos, diariamente despejamos relatos dos nossos pequenos dramas familiares. Ao falarmos deles, damos-lhes uma amplitude que escapa aos mais sensíveis sismógrafos de emoções. Exigimos a atenção de todos como se os nossos problemas fossem os maiores do mundo. Do nada fazemos enredos dignos de novela, multiplicando-lhes os capítulos e prolongando o “suspense”, sempre que achamos que ainda existe público disposto a ouvir-nos. Estarei a exagerar? Penso que não.
Estejamos atentos às conversas de circunstância – daquelas geradas a partir de um encontro casual de duas pessoas que se conhecem e não se veem há algum tempo. Reparem como, depois dos primeiros instantes dos cumprimentos da ordem, desatam ao desafio nas lamúrias de carácter pessoal, profissional ou familiar. É o desenrolar de um corolário de lamentações: a carestia de vida e o dinheiro que não dá para nada, a falta de empregos, a criminalidade, a insegurança nas ruas, as listas de espera, as exigências do patrão, a incompreensão dos colegas, a chuva, o frio e tudo o mais que lhes aprouver, resumindo tudo ao permanente desconcerto do mundo.
Há dias em que tenho a sensação de que tanto a alegria como a felicidade nos são interditas. Deve ser neste comprazimento pelo desconforto que assenta o nosso proverbial “vai-se andando!”. Na verdade, “nunca estamos bem”, vamos sempre andando, de desgraça em desgraça, como se o prazer nos fosse interdito e, no jogo da vida, apenas nos tivessem calhado bilhetes em branco. Estivéssemos nós atentos ao somatório das terminações que, semana após semana nos têm saído, e tomaríamos consciência de que a maioria se passeia com a sorte grande sem o saber. A grande questão reside no facto de andarmos tão ocupados a inventar e reinventar problemas, que nos esquecemos de conferir o talão e gozar o prémio. Quando nos apercebemos, está já caducado o prazo de validade da cautela.
Sejamos realistas. Imagens de verdadeira desgraça e horror são as que nos chegam, há mais de uma semana, quando em direto vemos estilhaçar o relógio da vida de milhares de pessoas. Entre elas, mais de uma centena de meninas inocentes que diariamente cumpriam o dever de ir à escola, de estudar, de buscar e lutar pelo conhecimento, a única arma de que precisavam para sobreviver por entre os diversos fanatismos.
Soeiro Pereira Gomes, no seu livro “Esteiros”, fala-nos dos homens que nunca foram meninos. Parafraseando-o, direi que estas são as meninas que não chegaram a ser mulheres porque lhes deram o nome de “danos colaterais”. Por ironia, quando se invoca que, entre as várias razões da guerra, estaria também a defesa dos direitos das mulheres, estas foram as primeiras a cair por vontade de alguém que nunca respeitou e continua a não respeitar as mulheres.
É de uma tremenda ironia que, poucas semanas depois de termos desejado uns aos outros tantos votos de saúde, paz, prosperidades, êxitos pessoais e profissionais para o ano que se iniciava, este nos tenha brindado com quadros de destruição rápida e agonia lenta. Tudo em frações de segundos, como que a lembrar-nos da efemeridade do que temos. Não aguentamos a violência das imagens e voltamos a cara. Por pudor e respeito a todos os inocentes que sofrem, sem nunca terem sido ouvidos.
Nos próximos dias, talvez meses – não sabemos quanto tempo a guerra vai durar -, as nossas vidas não irão melhorar. Mas, da próxima vez que nos sentirmos tentados a falar dos nossos pequenos problemas para sensibilizar quem nos ouve, lembremo-nos da carga semântica das palavras. Não existe escala para a medir, apenas a sensatez de nos sabermos calar, sempre que, de qualquer outro lado do mundo, outras vozes são caladas pela força das armas.
Aida Batista/MS







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