A minha herança maior

As minhas raízes atravessam terras xistosas do Douro Vinhateiro.
Plantei vinhas nos socalcos íngremes da minha imaginação desde a idade em que comecei a ouvir as narrativas de meu pai sobre as suas origens. Além das descrições das montanhas e da força do rio, escutei muitas histórias de privação e miséria. Outras tantas de prepotência e submissão, vividas num tempo em que a fome ditava servilismos de sobrevivência.
Ele contava-as sempre na terceira pessoa, como se a vergonha o fizesse atirar para outros as dificuldades que vivera. Cedo desconfiei daqueles registos que tinham em si muito de biográfico, como daquela vez em que – dizia ele -, ao regressar da Quinta das Carvalhas num sábado à tardinha (naquele tempo trabalhava-se ao sábado), o irmão dele se engasgara com uma metade de sardinha que sofregamente devorava num naco de pão. Perguntei-lhe: “Então, a outra metade era a sua?”, ao que me respondeu que sim, e que até tinham sorte porque, normalmente, era dividida por três. Ficara órfão de pai, aos catorze anos de idade, com a responsabilidade de ajudar a criar seis irmãos (quatro raparigas e dois rapazes), assumindo o papel de homem da casa, ao lado de sua mãe, para o que desse e viesse. E o que desse não era nada, porque não existiam pensões de viuvez ou outro qualquer tipo de apoio social; o que viesse nada era pois significava a repetição de quotidianos de pobreza.
Não espanta, por isso, que, como tantos outros nas mesmas condições, desde cedo alimentasse o sonho de emigrar. Fê-lo no final da década de quarenta, embora, no seu caso, não se aplicasse o verbo emigrar, por ter escolhido Angola que, sendo uma colónia, integrava um império uno e indivisível do Minho a Timor. Como parte da propaganda que ditava um espaço pluricontinental e racial, este império passou a ser celebrado em textos, saraus literários e récitas escolares, com o objetivo de despertar nacionalismos adormecidos.
Na minha primeira e única vinda a Portugal para passar férias, iniciei o meu 3º ano letivo (hoje 7º ano) no Externato de Tabuaço. Fizemos na altura um espetáculo de variedades de que ainda guardo instantâneos breves. Num dos números em se que exaltava todo um patriotismo deslocado, entrava aquele que me parecia ser o rapaz mais alto da turma embrulhado na nossa bandeira, representando Portugal. Pelo palco, uma a uma, iam desfilando todas as províncias portuguesas mais as ultramarinas. Recordo a apoteose final – Portugal, imponente no meio do palco, abria os braços com quem abarcava as províncias estrategicamente colocadas de um lado e do outro, entoando a quadra:
“Todas vós sois minhas filhas/ E todas vós irmãs sois/ Entre nós não há partilhas/Vivamos juntinhas pois!”
Estávamos em 1962, um ano depois de iniciada a guerra colonial, no mais descarado apelo à manutenção de um império que começara a dar sinais de desintegração. Meu pai, entregue ao trabalho e à educação da sua numerosa prole, também não percebera que os tempos eram de mudança. Em 1975, quando regressou, trouxe como único património seis filhos ainda menores.
Na sua básica instrução, que apenas lhe conferira a quarta classe, sentiu a perda, mas, sem ressentimentos, logo percebeu que “o caminho se faz caminhando”, nem que para isso tivesse tido, com a ajuda da mulher e dos filhos, de dinamitar as graníticas lajes do lugar onde ergueu a sua nova casa. Duro como o granito do chão foi o seu recomeço. Contudo, apesar da fraca escolaridade, aprendeu muito na escola da vida e do mundo que lhe entrara por via da emigração. E foi por isso que, ao contrário de muitos outros, nunca se referiu ao passado como uma perda.
Pelo contrário, passou sempre aos filhos a mensagem de que valera a pena; porque conhecera mundo e lhes dera horizontes, a mais importante herança que nos podia ter deixado.
Aida Batista/MS




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