A Ilha da Gabriela

Ilhéu da casca até ao cerne — e lá vou eu,sem ambição maior que o livre espaço.
Pedro da Silveira
Em abril passado, estive nas Flores (Açores) para participar no 40º Colóquio da Lusofonia que decorreu nas Lajes das Flores. Esta ilha está indissociavelmente ligada à minha amiga Gabriela Silva, a florentina que tão bem encarna o espírito indomável da ilha.
Conheci a Gabriela numa ilha fora do mapa, das que os açorianos souberam erguer no meio de diásporas espalhadas em mares de expectativas. Aquela, onde pela primeira vez a vi, ficava no Canadá – um punhado de gente rodeada de muita terra banhada pela água do mesmo mar que lhe travou a saída. Porque ela, filha da ilha de Pedro da Silveira “da casca ao cerne”, nunca se deixou tentar pelas Califórnias de abundância.
Conheci-a solta, desassombrada, na autenticidade de que é feita: sem segredos nem máscaras, como todos os que fazem da verdade o seu dom maior. Apresentou-se por inteiro, mulher das ilhas, da sua Ilha, que nenhuma ilha é igual à outra como descobri muito depois.
Na Ilha longínqua onde nos conhecemos, todos nos sentíamos ilhéus de uma ilha só, sem cuidarmos dos lugares de onde vínhamos, porque quando se semeiam afetos fora da terra onde nascemos, estes brotam com a força dos sentimentos que se alimentam da cumplicidade da partilha, indiferentes ao ADN que define o berço. Desse primeiro encontro, em que apenas ela falou e eu ouvi, nasceu este meu fascínio pela sua sinceridade numa noite de confissões.
Nela vi a Ilha toda, porque reunia numa só pessoa tudo quanto a sua ilha pode ser: nuns dias, a quietude das águas das lagoas, noutros a revolta trazida pela força das marés do mar profundo; umas vezes, o silêncio das fráguas rasgadas na memória do tempo, outras, o rugido do mar contra o ventre quente da terra. Inconstante e imprevisível, como é o tempo das ilhas, já que as ilhas se querem livres na vontade de convocar sol, chuva, vento ou neblina, sem seguirem qualquer calendário que as espartilhe em estações do ano.
Apesar da sua estatura física, Gabriela enrolou-se na pequenez da Ilha e fez dela o útero onde se aninha em contínuas declarações de amor por ela, numa solidão ora desejada ora partilhada com aqueles a quem permite a entrada no seu mundo de enamoramento para o qual nos convoca.
Ir à sua Ilha é sempre uma festa, celebrada num cenário de muitos e variados verdes, maroiços de hortênsias à espera do verão, cascatas a romper silêncios adormecidos na paisagem, que se despenham num fragor branco a desfazer-se no negro do basalto, falhas que a natureza talhou na força do magma, vales profundos abertos ao olhar dos miradoiros de onde apetece mandar calar o espanto, paredes atapetadas de musgo a que encostamos o corpo para lhe sentir o aconchego, o olhar terno das vacas que se põem a jeito, como se tivessem nascido a saber posar para a fotografia ou o Sol a pôr-se na Fajã Grande, momentos depois de os romeiros terem deixado esquecidos na rocha do tempo os bordões talhados pela fé.
Na sua Ilha, existe ainda um espaço muito especial – a casa que foi dos pais, dos avós e de todos que os precederam, numa herança feita das memórias que lhe deram corpo e vida. Uma casa cheia de histórias de determinação e muita teimosia dos que nela habitaram. Mas é cá fora, no espaço aberto do jardim, de onde se avista a estrada e o mar da Fazenda, que se celebra a amizade, guardiã de um tempo em que a casa estava sempre cheia.
E continua a estar, porque a ilha da Gabriela continua a ser uma terra de pouca gente, mas rodeada de muitos amigos.
Aida Batista/MS




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