Aida BatistaOpinião

A força das palavras

Crédito: DR

Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas, que esperam por nós
E outras frágeis, que deixaram de esperar (…)
– Mário Cesariny

“Há palavras que nos beijam/como se tivessem boca (…)”, assim começa a letra de uma canção interpretada por Mariza. E assim é! Há palavras que beijam, acariciam, aconchegam, afagam, mimam e ninam, como as canções de embalar antes de adormecer. Outras há que mordem, arranham, queimam, ferem, magoam, chegando mesmo a matar. Por isso, todas elas devem ser manuseadas com cuidado, porque nunca sabemos se quem as ouve as recebe como carícia ou arma de arremesso.

Quando penso em palavras, lembro-me de um embaixador americano que, na hora de deixar Portugal, deu uma entrevista a um periódico português, em que confessou gostar muito da palavra «pantufa», por tudo quanto lhe estava associado. Passei a olhar para a pantufa com os olhos de um estrangeiro e concluí que ele tinha razão. Uma palavra não é um corpo neutro, pois encerra todo um universo de significantes. E, para ele, as pantufas eram descanso, conforto, o “choco” do sofá; mas também podem incomodar, e muito, se as virmos, aos pares e imóveis, ao lado de uma cama de hospital ou nos pés de um doente que arrasta a morte, vagarosamente, para enganar o curso da vida. Eu, por exemplo, gosto muito da palavra ombro, não pelo que ela de anatomicamente representa, mas por um outro significado mais intimista que lhe incorporo – o lugar que nos basta para um encosto porque, ombro acima, encontramos um ouvido que escuta as mágoas de qualquer desgosto.

Há, contudo, palavras em que ninguém toca, caíram no esquecimento como crianças para quem ninguém olha no momento de adoção. Mas elas continuam a gritar que existem, porque continuam a fazer parte do vocabulário de alguém, apesar de não serem usadas. Em outubro passado, estive no Namibe (Angola) para dar uma formação a professores do ensino básico. Numa das aulas, fizemos referência a arcaísmos e um dos que dei como exemplo foi “à guisa de”. Para grande espanto meu, os formandos disseram-me que ainda a usavam. Afinal, aquilo que é um arcaísmo para nós, mantém-se vivo como uma relíquia, no léxico de um país que tem o português como língua oficial.

Se hoje aqui invoco a força das palavras é porque, ultimamente, tenho constatado um espaço público contaminado por palavras sabujas e grosseiras, que fui educada a não proferir e hoje se vulgarizaram. A sua utilização, com mais frequência, é um indicador de que se tende para uma normalização da deselegância no trato. Quando se banaliza a prática da falta de maneiras na linguagem, hoje ampliadas pelas redes sociais, e tudo se confunde com liberdade de expressão, então não nos admiremos que o discurso público seja cada vez mais pobre roçando mesmo a boçalidade.

Acabámos de passar um longo período de campanha eleitoral para as presidenciais, que vai continuar por causa da escolha de um dos candidatos na segunda volta. Iremos ter muitas ações de campanha, entrevistas e debates a dois. Pela natureza de um dos candidatos, sabemos que as intervenções poderão vir embrulhadas num tipo de linguagem muito baixa, desligada do conteúdo das ideias que venham a ser defendidas. Espera-se que o espírito cristão que o mesmo advoga, tenha em conta uma das máximas de Madre Teresa de Calcutá, quando nos diz que “As palavras que não dão luz aumentam a escuridão”.

Pense-se, por isso, que a melhor e única maneira de ser esclarecido não é falar alto, gritar, gesticular, insultar ou falar por cima do outro. A eleição é para escolher o mais alto magistrado da nação, alguém que nos saiba representar enquanto país. E a condição primeira é ser educado!

Por isso, como num jogo de espelhos, voto em quem me reflete: no decoro e na decência.

Aida Batista/MS

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