Aida Batista

A força da rima

 

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Um muito conhecido fado de Amália Rodrigues começa assim: “Foi por vontade de Deus…”. A data a que hoje me vou referir, não nasceu por vontade de Deus, mas pela persistência de Ana Elisa do Couto, filha de proprietários rurais muito humildes, nascida no ano de 1926, em Penafiel. Depois de se casar e ser mãe, percebeu a importância de seus pais na vida dos netos, não só no apoio e na unidade familiar, mas também na passagem de testemunho do património e das tradições. Essa ideia saiu ainda mais reforçada, a partir do momento em que tem o primeiro neto e percebe o quão importante era o seu estatuto de avó. Não descansou, por isso, enquanto não se institucionalizou o Dia dos Avós.

Eivada de um espírito de levar esta cruzada por diante, e após muita perseverança, pela resolução 50/2003 de 4 de junho, a Assembleia de República Portuguesa instituiu o Dia 26 de Julho como Dia Nacional dos Avós. A escolha ficou ligada ao facto de esse ser o dia de Santa Ana e S. Joaquim, pais da Virgem Maria, e, como tal, avós de Jesus Cristo e padroeiros de todos os avós.

A data escolhida tinha, como qualquer outra que não coincida com um feriado ou domingo, o inconveniente de poder calhar a qualquer dia da semana, impedindo que se realizassem, em plenitude, todas as atividades relacionadas com a efeméride. Este ano, e por vontade do Papa Francisco, o dia foi transferido para o último domingo de julho, razão por que vimos as celebrações terem acontecido no passado domingo (24), e não hoje, quando escrevo a crónica (dia 26), considerado o Dia dos Avós. Não sei o que levou o Papa a tomar tal decisão, mas adivinho que, dada a proximidade da data dos padroeiros com o último domingo de julho, apenas queira que, assim, avós e netos tenham o dia livre para se juntarem nas diversas celebrações, sejam elas de caráter religioso ou profano.

Nós somos animais de hábitos, avessos à mudança. Alterarem-nos o que é dado como adquirido, é o mesmo que chegar ao supermercado e encontramos as mercadorias fora das prateleiras onde é habitual encontrá-las. No início, andamos um pouco perdidos. A minha geração, por exemplo, habituou-se a celebrar o Dia da Mãe a 8 de dezembro, Dia da Imaculada Conceição. Mudaram-no para maio, mês de Maria, mas há ainda quem persista em manter a comemoração anterior, sem nunca ter aderido à mudança.

Não admira, por isso, que tenha começado a assistir a algumas reações contra esta alteração. Há também quem não tenha gostado que ao Dia dos Avós ficassem também associados os idosos. Ora aqui está um adjetivo que, à partida, gera alguma discordância junto dos que alegam que existem avós muito jovens. Há, sim senhor, até eu fui mãe e avó muito cedo. No entanto, se tivermos em conta (os dados são de instituições que nos merecem credibilidade) que os jovens saem de casa, e iniciam relações estáveis cada vez mais tarde, a próxima geração de avós tende a ser ainda mais velha do que a presente. Por mais jovens que nos sintamos, não importa a idade em que se atinge a avosidade, mas sim como é que os netos nos veem. Aos olhos deles, seremos sempre idosos.
Um dia perguntei ao meu neto mais novo, se me considerava velha. Não hesitou e disse logo que sim, acrescentando de imediato: “mas tu és uma avó radical”, enumerando o que já tínhamos feito juntos e que não seria comum para a maioria das avós que ele conhecia.

Libertaram-nos do xaile preto, do lenço na cabeça, do avental e dos chinelos com que a iconografia nos representava, mas, não nos iludamos, avosidade rima com idosidade.

 

Aida Batista/MS

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