Aida BatistaOpinião

A cartografia das ausências

Crédito: DR

 

Mesmo ausentes, continuamos a existir em todos os momentos.olhos e dormi
– José Luís Peixoto

Em todos os movimentos migratórios conhecidos e devidamente documentados, quase sempre era o homem quem primeiro partia para criar as condições que permitissem uma reunificação familiar. Sabemos, no entanto, que, nas últimas décadas, se tem dado a feminização da emigração, embora esta não tenha conseguido ser tão forte que anule as tendências anteriores.

Quando era o homem o chefe de família, como então se designava, deixava muitas vezes filhos pequenos que, durante alguns anos, se viam privados da presença do pai ou os conheciam cristalizados em molduras de fotografias. Em alguns casos, nem sequer se tinham despedido deles, sendo estes depois confrontados com explicações que não davam resposta ao vazio deixado.

Ao longo dos meus contactos com o tecido migratório, ouvi muitas histórias dramáticas sobre ausências que criaram ruturas dolorosas no mapa das emoções destas crianças que, de um dia para o outro, eram confrontadas com rostos desconhecidos na sua cartografia de afetos. Compreende-se, por isso, que existam muitos casos de crianças que levaram tempo a criar laços afetivos, precocemente interrompidos, e de outras que nunca chegaram a fazê-lo. Estas histórias retratam dinâmicas sociais de uma época que não gostaríamos de ver repetida no nosso país, quando se pretende dificultar a reunificação familiar. O caso de Emanuel Melo, residente em Toronto, é bem paradigmático do que acabo de escrever. De um dia para o outro, o pai emigrou, voltou três anos depois para ir buscar a família, mas Emanuel nunca o perdoou. Após a morte do pai, sentiu necessidade de se reconciliar com a mágoa que o perseguiu. Retirei este excerto da comovente carta que publicou no seu site: “Pai, agora que aqui já não estás, sinto a tua ausência; agora que já te foste embora por mais tempo do que eu julgava ser possível, sinto a tua falta. Enquanto eras vivo, nunca te compreendi. Escondi-me de ti e nunca mais me achaste depois do dia em que emigraste, quando eu era apenas uma criança. Um dia, desapareceste-me e eu, criança, não entendi a razão; apenas sabia que me tinhas deixado sozinho com a minha mãe. Abandonaste-me.

Como podia eu, criança, compreender que tinhas de emigrar por motivos que só os adultos sabiam? A minha mãe disse-me, depois de eu acordar sem ti ao meu lado, que te foste embora, e o meu mundo de criança desfez-se em desilusão. Não me disseste adeus, apenas desapareceste.”

Poderia referir muitos outros casos, mas vou limitar-me àqueles de que tenho registos escritos, como é também o de Ana Medeiros. O pai emigrou em 1960 para o Canadá, deixando a mãe grávida de si e já com 4 filhos. Até se juntarem a ele, viu-o duas vezes: aos 3 e aos 6 anos de idade. Quando toda a família se volta a reunir, em 1968, a sua reação foi: “Inicialmente, não gostava muito do meu pai. Só o tinha visto duas vezes na minha vida. Estava habituada a dormir com a minha mãe e agora não podia, era o meu pai que dormia com ela. Embora o meu pai tenha sido carinhoso com todos nós, demorou algum tempo até que eu me relacionasse com ele. […] só depois de terminar o ensino secundário é que consegui aquela ligação especial com ele.”

Ainda o testemunho de Paula Vasconcelos, que, com a irmã ficou entregue aos cuidados da avó.
“Lembro-me de me sentir envergonhada no encontro com os meus pais, que não via há muito tempo. Felizmente, estávamos acompanhadas da nossa querida avó escondendo-nos atrás das suas saias”.

Embora, pelo grau da dor causada, não possamos comparar estas três experiências, a verdade é que facilmente se pode concluir que existe sempre um corte emocional que deixa marcas: umas, disfarçadas pelas cicatrizes que as denunciam; outras, feridas abertas que nunca sararam.

Aida Batista/MS

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