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Putin atira culpas para o Ocidente quanto à guerra na Ucrânia

Russian President Vladimir Putin addresses Federal Assembly
epa10481261 A woman watches Russian President Vladimir Putin address to the Federal Assembly, at her home in Moscow, Russia, 21 February 2023. ‘The goal of the West is to inflict a strategic defeat on Russia, to end us once and for all. We will react accordingly, because we are talking about the existence of our country’ Putin said,addressing the Federal Assembly. EPA/SERGEI ILNITSKY

 

Vladimir Putin acusou, esta terça-feira, o Ocidente de ser o instigador da guerra na Ucrânia, garantindo que tentou sempre a via diplomática para chegar a acordo com os países da NATO, evitando o conflito. “Passo a passo” os objetivos serão alcançados na Ucrânia, promete o líder russo, que suspendeu a participação no único acordo de não-proliferação de armas nucleares em vigor entre os EUA e a Rússia, o “New START”.

“Foram eles que começaram a guerra. Nós estamos a tentar pará-la”, afirmou, no discurso do Estado da Nação, em que caracterizou a Rússia como um país vítima da hegemonia ocidental e que sempre procurou a paz. “Nós defendemos a vida, o Ocidente quer poder”, garantiu, dando o exemplo da dispersão de bases dos EUA pelo Mundo.

Na longa intervenção em Moscovo, perante as duas câmaras do Parlamento e uma plateia recheada com a elite do país, o líder do Kremlin voltou a tocar em vários pontos amplamente divulgados ao longo do último ano: a Rússia é vítima de uma conspiração global que quer acabar com o país “para sempre” e a Ucrânia é um regime ameaçador, com uma força militar nazi, tal como o era exército alemão durante a II Guerra Mundial.

“A responsabilidade por alimentar o conflito ucraniano, pela sua escalada e pelo número de vítimas recai inteiramente sobre as elites ocidentais”, disse Putin, reiterando que o Ocidente apoia forças “neonazis” na Ucrânia, para consolidar um Estado anti-russo.

Uma vez mais, o presidente russo afirmou que foi obrigado a intervir na Ucrânia para salvar os povos russos da região do Donbass das mãos do regime de Kiev, sem reconhecer o envolvimento do país no conflito que eclodiu na região.

“Não estamos em guerra com o povo da Ucrânia. O povo está a sofrer às mãos de Kiev e da NATO”, afirmou, acusando a Ucrânia de estar a negociar a chegada de mais armas e aviões ao país, nos meses que antecederam a invasão de 24 de fevereiro de 2022. Tal negociação terá sido fundamental para a invasão que terá servido também para autoproteção russa.

Putin afirmou ainda que continua determinado, um ano após o início da ofensiva na Ucrânia, a continuar o conflito para resolver “passo a passo, cuidadosa e sistematicamente, os objetivos” do país. “Para garantir a segurança do nosso país, para eliminar as ameaças de um regime neonazi existente na Ucrânia desde o golpe de 2014, foi decidido realizar uma operação militar especial”.

 

Russian President Vladimir Putin addresses Federal Assembly
epa10481265 People gather for Russian President Vladimir Putin address to the Federal Assembly at the Gostiny Dvor conference centre in Moscow, Russia, 21 February 2023. About 1,200 people including lawmakers of Russian two-chamber parliament, Government members, heads of the Constitutional and Supreme court, and regional governors, were invited to attend the event. EPA/MIKHAIL METZEL / SPUTNIK / KREMLIN POOL MANDATORY CREDIT

 

Suspensão de acordo nuclear

Perto do final do discurso que durou mais de 90 minutos, Vladimir Putin anunciou que iria suspender a participação do país no acordo “Novo START”, assinado em Praga, em 2010, que pretendia limitar o arsenal nuclear de Rússia e EUA. Formalmente designado por Tratado de Redução de Armas Estratégicas Ofensivas, o acordo estaria em vigor até fevereiro de 2026, depois de ter sido prorrogado em 2021. Este tratado previa a redução do número de mísseis nucleares ativos e de lançadores de mísseis, prevendo um programa de inspeções mútuas, que confirmassem o cumprimento do acordo. Recentemente, os EUA acusaram os russos de não permitirem as inspeções previstas.

“Tenho de anunciar que a Rússia está a suspender a sua participação no Novo START”, disse Putin, alegando que necessita de conhecer os arsenais dos países da NATO, como França e Reino Unido. Afirmou também que seria absurdo autorizar tais inspeções, num momento em que os “EUA e a NATO querem derrotar estrategicamente a Rússia”. O acordo abarca armas como mísseis intercontinentais, que possam atingir o outro signatário, mas não as armas nucleares táticas, usadas no campo de batalha. Putin pediu ainda às autoridades russas que fiquem “prontas para testes de armas nucleares” se Washington os conduzir primeiro.

Putin garantiu também que serão introduzidas tecnologias mais modernas na produção de armas e exortou os fabricantes de armamento a garantir a sua “produção em massa”, tendo mesmo afirmado que os protótipos que já existem nos vários ramos das Forças Armadas “excedem os seus análogos estrangeiros”. Segundo Putin, o nível do equipamento das forças russas relativamente a armas nucleares modernas é 91% superior ao do Ocidente.

“Temos um plano de desenvolvimento das Forças Armadas e os nossos passos futuros devem ser baseados na experiência real de combate, que não tem preço”, acrescentou.

Operação militar especial

Apesar de o discurso fazer referência a combates, vitórias militares, apoio aos veteranos do conflito e ao envio do que for necessário para a frente de combate, a palavra “guerra” continua ausente do léxico oficial do Kremlin. A invasão continua a ser “uma operação militar especial” e Putin refere apenas palavras e expressões como “uso de força”, “proteção” ou “libertação”.

“Vejam o que eles estão a fazer com o seu próprio povo: a destruição de famílias, identidades culturais e nacionais, perversão e abuso infantil, até pedofilia, são declarados a norma. E os padres são obrigados a abençoar os casamentos entre homossexuais”, disse.

Economia preparada para conflito longo

O discurso desta terça-feira deixa perceber que o país se prepara para um longo conflito, já que estão a ser criadas estruturas de apoio aos veteranos e às famílias de quem perdeu a vida em combate e Putin definiu até que todos os soldados devem ter 14 dias de férias de seis em seis meses, “sem contar com o tempo de viagem”. Ficou também a promessa de um grande investimento na modernização do armamento disponível. “As forças armadas devem estar em primeiro lugar” e o povo russo “valoriza o que está a ser feito na frente de batalha” foram duas das ideias-chave da preleção sobre a guerra.

Na parte económica, garante que o Ocidente está a sofrer mais com as sanções impostas para fazer sofrer os cidadãos da Rússia e que o seu país é bode expiatório da crise inflacionária. Com o bloqueio a oeste, a Rússia pretende apostar ainda mais no mercado asiático, para manter a economia ativa.

Dirigindo-se aos homens de negócios do seu país, o líder considerou que “todos devem compreender que as fontes de bem-estar e o futuro devem estar apenas aqui, no seu país natal: a Rússia”. Putin instou-os a investir na economia interna, para que se crie um “um país que não se feche ao mundo, mas que utilize todas as suas vantagens”. Para fazer face à falta de alguns produtos, após a saída de muitas empresas ocidentais do território, a empresas russas devem “aproveitar esta oportunidade para aumentar a produção dos produtos mais procurados”.

O PIB russo contraiu-se em 2,1% em 2022, de acordo com os números divulgados pela agência estatal Rosstat Monday – longe das previsões apocalípticas da Primavera passada. “A economia e o sistema de gestão russos revelaram-se muito mais fortes do que o Ocidente acreditava”, disse Putin.

Traidores perseguidos

Num recado interno em tom de ameaça, o líder russo afirmou que “os traidores” do país devem ser perseguidos e levados à Justiça, num apelo a que seja aumentada a repressão aos opositores do Kremlin e do conflito na Ucrânia. “Aqueles que optaram por trair a Rússia devem ser responsabilizados perante a lei”, com detenções e penas pesadas, afirmou, apesar de garantir que o objetivo não é fazer uma “caça às bruxas”.

Sobre o seu futuro, Vladimir Putin deixou antever que poderá concorrer a uma reeleição nas presidenciais de 2024, enfatizando “que as eleições, tanto as locais quanto as regionais, em setembro deste ano, e as presidenciais, em 2024, vão acontecer em estrita conformidade com a lei, respeitando todos os procedimentos democráticos constitucionais”.

O dia escolhido para este discurso coincide com a data em que Vladimir Putin assinou o reconhecimento da independência das repúblicas separatistas de Lugansk e de Donetsk, na região do Donbass, o que motivou a invasão para as defender.

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