Cozinhar com fogões a gás mata 40 mil pessoas por ano na UE e Reino Unido
Os poluentes resultantes de cozinhar com fogões e fornos a gás estão relacionados com cerca de 40 mil mortes prematuras na União Europeia e Reino Unido, segundo um estudo da universidade espanhola Jaume I, que analisou os dados relacionados com os impactos do dióxido de azoto na saúde.
São presença ainda comum em muitas cozinhas portuguesas e um foco de poluição que habitualmente passa despercebido do grande público, mas os fogões a gás, “de uma perspetiva de saúde pública”, são “tóxicos”, afirma à Bloomberg Juana Maria Delgado-Saborit, autora principal do trabalho divulgado esta segunda-feira, sobre o impacto na saúde destes aparelhos domésticos. E o impacto nas mortes prematuras é “bem pior do que pensavamos”.
Em causa, está o resultado do estudo que associa o dióxido de azoto libertado no interior das casas à morte prematura de 40 mil pessoas por ano na Europa e no Reino Unido, mas também ao aumento de casos de asma infantil e em adultos. E esta é uma estimativa conservadora do impacto na saúde destes aparelhos, já que a investigação não se focou no impacto de outros poluentes na saúde. Por comparação, em 2022, 20.640 pessoas morreram na União Europeia e 1.766 no Reino Unido, em acidentes de viação.
“Em 1978, soubemos pela primeira vez que a poluição por dióxido de azoto é muitas vezes maior em cozinhas que utilizam gás do que em fogões elétricos, mas só agora podemos calcular o número de vidas que estão a ser encurtadas”, explica ao jornal “The Guardian” a mesma investigadora.
Segundo o trabalho, financiado pela organização não governamental Fundação Climática Europeia, uma em cada três famílias na União Europeia utiliza gás para cozinhar. No Reino Unido, a prevalência de fogões a gás é de 54%, mas mesmo dentro da UE há casos considerados mais problemáticos, com Itália, Países Baixos e Roménia a destacarem-se, com níveis de utilização de gás acima de 60%.
Sobre os casos de asma em crianças, o trabalho aponta para 41 mil casos e mais de um milhão de pessoas quando se incluem todas as idades no estudo, que faz um cálculo sobre o impacto económico das mortes e dos problemas de saúde associados à exposição de longo prazo a dióxido de azoto. No total, cozinhar com fogões a gás terá um impacto económico negativo de 180 mil milhões de euros, revela a conclusão do trabalho.
Os países que mais beneficiariam com a mudança para aparelhos de cozinha mais limpos são Reino Unido, França, Itália, Polónia, Roménia, Países Baixos, Espanha e Hungria. “Estes países são responsáveis por 94% da mortalidade prematura, 90% dos anos de vida perdidos, 91% da asma total e 93% da asma pediátrica, considerando os custos de saúde combinados estimados relacionados com as emissões de gases de cozinha na UE e no Reino Unido”, pode ler-se no documento, onde se recomenda a adoção de políticas públicas para reduzir ou eliminar os fogões a gás.
A primeira recomendação para quem ainda usa este tipo de aparelho é que tente ventilar o melhor possível a divisão onde está a cozinhar, para minimizar o impacto dos gases. Este relatório, que ainda não foi sujeito a revisão pelos pares, é o maior estudo em termos de população a considerar o impacto dos fogões a gás na saúde, disse à Bloomberg Christian Pfrang, professor de ciências atmosféricas na Universidade de Birmingham, e deveria “servir de alerta para os decisores”.
Em Portugal, os dados não são tão preocupantes como em outros países europeus, mas ainda assim há o registo de 105 mortes prematuras devido à exposição a dióxido de azoto e uma estimativa de 216 anos de vida perdidos devido a estas mortes prematuras.








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