Comunidade

Homenagem a Maria Barroso no Canadá

“Nenhuma mulher é estrangeira numa sociedade que vive dos direitos humanos”

Manuela Marujo, Maria Barroso e Maria Amélia Paiva. Créditos: Manuela Marujo

Maria de Jesus Barroso aceitou o convite para proferir a conferência de abertura do I Congresso Internacional A Vez e a Voz da Mulher Imigrante Portuguesa, realizado na Universidade de Toronto, em 2003. Assinalava-se, nesse ano, o cinquentenário da chegada oficial dos portugueses ao Canadá e pretendia-se realçar o papel da mulher portuguesa na diáspora.

Desde o momento da sua chegada, Maria Barroso revelou-se uma pessoa de grande simplicidade e trato afável, genuinamente interessada em ouvir as mulheres que a acolheram. Questionava, escutava e partilhava memórias da sua própria experiência enquanto mulher exilada em Paris — anos marcados por privações e saudades da família — criando, desde logo, um ambiente de proximidade e igualdade.

Durante a sua intervenção, foi particularmente enriquecedor ouvi-la refletir sobre a condição, as aspirações e os desafios enfrentados pela mulher portuguesa emigrante, obrigada a reconstruir a sua vida numa sociedade de acolhimento. A defesa da igualdade de direitos, com especial ênfase na educação e no acesso ao mercado de trabalho, esteve no centro do seu discurso, entendido como condição essencial para a emancipação feminina. As suas palavras não soaram a mero discurso de circunstância, mas à voz de alguém que viveu, estudou e lutou de forma consequente para que essas ideias se transformassem em realidade.

A sua intervenção em Toronto foi, aliás, reflexo de um percurso longo e consistente em prol da mulher migrante. Desde o maior congresso de mulheres portuguesas na diáspora, realizado em Espinho, em março de 1985, Maria Barroso esteve presente nas iniciativas promovidas pela Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade da Mulher Migrante (AMM), que celebra este ano três décadas de atividade contínua. O livro Entre Portuguesas: Maria Barroso na nossa memória, publicado em 2015 e coordenado por Manuela Aguiar, Graça Guedes e Arcelina Santiago (AMM), regista o percurso e o ativismo impressionante desta mulher frágil na aparência, mas de espírito indomável.

Maria Barroso regressaria a Toronto em 2007, a convite da então Cônsul-Geral Maria Amélia Paiva, para incentivar a integração plena da mulher portuguesa no Canadá, nomeadamente através da aquisição da cidadania — condição fundamental para uma participação mais ativa na vida cívica e política e para o exercício pleno dos seus direitos. Foram os Encontros para a Cidadania que liderou e que, por isso mesmo, se realizaram com ampla participação e grande entusiasmo.

Homenagear Maria de Jesus Barroso no Canadá, no ano do seu centenário, é, por isso, um gesto pertinente e profundamente justo.

Para assinalar esta figura incontornável da vida política, social e cultural portuguesa, a Associação Mulher Migrante do Ontário (AMMO) convida toda a comunidade e o público interessado a estar presente. A Galeria dos Pioneiros cede gentilmente as suas instalações, patrocinando assim este evento. 960 St. Clair Avenue West, 29 de dezembro, das 17h-20h.

Maria de Jesus Barroso (1925–2015)

Atriz, ativista cívica e defensora dos direitos humanos, Maria de Jesus Barroso foi uma das mais marcantes figuras da vida cultural, social e política portuguesa do século XX.

Dados essenciais

  • Nome completo: Maria de Jesus Simões Barroso Soares
  • Nascimento: 2 de maio de 1925, Lisboa, Portugal
  • Falecimento: 18 de julho de 2015, Lisboa
  • Formação: Conservatório Nacional (curso de Teatro)
  • Profissão: Atriz, professora, ativista cívica

Teatro e cultura

Iniciou muito jovem a sua carreira no teatro, integrando companhias e participando em encenações marcantes do teatro português. A sua ligação às artes foi sempre indissociável de uma visão humanista e interventiva da cultura, entendida como espaço de liberdade, reflexão crítica e compromisso social.

Exílio e resistência

Casada com Mário Soares, figura central da oposição democrática ao Estado Novo, Maria Barroso partilhou com ele os caminhos do exílio político em Paris durante a ditadura. Esses anos foram marcados por dificuldades materiais, separações familiares e intensa atividade cívica, reforçando o seu compromisso com a democracia, a justiça social e os direitos humanos.

Mulher, cidadania e direitos humanos

Ao longo da sua vida, Maria de Jesus Barroso destacou-se como uma voz firme na defesa dos direitos das mulheres, das populações migrantes e dos valores democráticos. Teve um papel ativo em organizações da sociedade civil, nomeadamente na promoção da cidadania, da igualdade de oportunidades e da participação cívica das mulheres portuguesas, dentro e fora de Portugal.

Foi presidente da Amnistia Internacional – Portugal durante a década de 1990, contribuindo decisivamente para a afirmação da organização no país e para a sensibilização da sociedade portuguesa em torno dos direitos humanos à escala global.

Primeira-Dama de Portugal

Enquanto Primeira-Dama (1986–1996), Maria Barroso deu uma dimensão própria ao cargo, privilegiando causas sociais, culturais e educativas, mantendo sempre uma postura discreta, independente e profundamente ética.

Ligação à diáspora portuguesa

Maria Barroso manteve uma relação próxima e constante com as comunidades portuguesas no estrangeiro, em particular com as mulheres emigrantes. A sua participação em encontros, congressos e iniciativas no Canadá, nomeadamente em Toronto, ficou marcada pela escuta atenta, pela partilha de experiências e pelo incentivo à integração plena, à cidadania ativa e à afirmação de direitos.

Legado

No ano do seu centenário, Maria de Jesus Barroso permanece uma referência incontornável de coragem cívica, coerência ética e compromisso com a dignidade humana, deixando um legado que continua a inspirar gerações em Portugal e na diáspora.

Manuela Marujo

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