Encontro Vianense também aconteceu na Peach Gallery: Histórias de vida e memórias partilhadas, um livro de legado, cultura e emoção
Foto: Adrianan Paparella / Rómulo Ávila
Há momentos que transcendem o simples acontecer — momentos que nos tocam profundamente, que nos unem e que permanecem gravados na memória como testemunhos vivos de esperança, generosidade e propósito. Este evento nasceu desse espírito: de uma vontade genuína de fazer a diferença, de aproximar pessoas e de acender luzes onde, por vezes, só existe silêncio.
Integrado no espírito do Encontro Vianense, este momento trouxe Viana do Castelo no coração — como quem guarda memórias, tradições e afetos que resistem ao tempo e à distância. Foi, em essência, uma verdadeira embaixada cultural, onde a alma vianense se fez sentir de forma autêntica e emocionante.
Assim, os artistas populares Augusto Canário e Cândido Miranda marcaram presença este fim de semana na Peach Gallery, em Toronto, participando num evento cultural que reuniu membros da comunidade portuguesa num ambiente de emoção, partilha e celebração da identidade lusa: a apresentação do seu livro.
Rodeado pelo público, o cantor destacou a importância simbólica do espaço, considerado um ponto de encontro relevante para a dinamização cultural da comunidade portuguesa na cidade. Apesar de alguma incerteza quanto à adesão, sublinhou que “independentemente de quem esteja, vale o evento”, reforçando o valor destas iniciativas.
Durante a intervenção, Augusto Canário manifestou também preocupação com o futuro da língua portuguesa no estrangeiro, referindo a possível retirada do ensino do português das escolas públicas como um sinal inquietante. “Temos de continuar a lutar para manter a nossa cultura viva”, afirmou, enaltecendo o papel das comunidades emigrantes nessa missão.
odeado pela sua gente, Augusto Canário destacou a importância do momento vivido num espaço que considera emblemático para os portugueses na diáspora.
“Há uma grande alegria e uma emoção muito forte por estarmos aqui”, afirmou, sublinhando que o local é hoje “um dos maiores polos culturais da comunidade portuguesa” na cidade canadiana. Ainda assim, não escondeu alguma preocupação quanto à adesão ao evento. “Não sabemos como vai ser. Pode vir muita gente, pode vir pouca, mas o que importa é o valor do evento”, referiu.
O artista evidenciou também o peso simbólico destes encontros, não apenas como celebração cultural, mas como expressão de identidade e continuidade. “É uma responsabilidade, mas também uma grande alegria”, reforçou. Questionado sobre a mensagem que leva consigo sempre que regressa a Portugal após contactar com as comunidades emigrantes, Augusto Canário destacou dois sentimentos essenciais: “o carinho e a gratidão pela forma como somos recebidos”.
Apesar de reconhecer que nem todos os eventos conseguem mobilizar grandes multidões, sublinhou a persistência de quem mantém viva a cultura portuguesa além-fronteiras. “Há sempre uma vontade de continuar a lutar por ter Portugal presente na comunidade”, disse.
Num tom mais sério, deixou ainda um alerta sobre o futuro do ensino da língua portuguesa no estrangeiro, nomeadamente no Canadá. “Tempos negros aproximam-se com a retirada do português das escolas públicas, e isso é preocupante”, afirmou.
Ainda assim, a mensagem final foi de resistência e esperança: “Como sempre fizemos, há sempre alguém que luta, que resiste e que persiste. O caminho é manter a nossa cultura viva.”
Em declarações, Cândido Miranda explicou que o livro surge como uma forma de preservar esse legado. “O livro é uma resenha dos nossos mais de 40 anos de parceria a cantar ao desafio e contém, fundamentalmente, dedicatórias ou textos sobre nós, de pessoas amigas que lá deixaram o seu depoimento sobre o que acham da nossa dupla”, afirmou. A publicação inclui ainda fotografias dos vários projetos em que participaram, reunindo momentos marcantes até à atualidade. “É, para nós, um legado de memória que quisemos deixar para quem o quiser conhecer”, acrescentou.
Questionado sobre a ligação às comunidades portuguesas, especialmente a de Toronto, o artista destacou o sentimento de gratidão. “No coração, rima com gratidão. A forma como nos tratam nas nossas comunidades, especialmente aqui… A verdade é que temos de ter muita gratidão”, sublinhou, referindo que o acolhimento recebido torna a apresentação da obra ainda mais especial. “É hora, agora, de agradecer esta honra que nos dão de apresentar este nosso livro a esta comunidade de portugueses aqui em Toronto.”
Sobre a arte do improviso e da rima, característica do cantar ao desafio, Cândido Miranda considera que existe uma componente natural difícil de explicar. “Acho que é um dom. Assumimos que é um dom que Deus nos deu e que nós tentámos desenvolver”, disse. Ainda assim, aponta a observação como elemento essencial: “Há uma coisa que é fundamental para o improviso: é a perspicácia. É ver, às vezes, o que está na sala para poder falar do que está à nossa volta.”
A obra, recorde-se, reúne testemunhos, dedicatórias e fotografias que retratam o percurso artístico da dupla, constituindo um importante registo de memória. A sessão terminou com um forte sentimento de proximidade entre os artistas e a comunidade portuguesa de Toronto, num momento em que a cultura, a língua e a identidade nacional voltaram a estar em destaque. Que este encontro não termine aqui, mas que continue a ecoar em cada gesto, em cada coração que foi tocado. Porque quando nos unimos por uma causa maior, deixamos de ser apenas indivíduos — tornamo-nos força, tornamo-nos mudança.
Este evento organizado por Augusto Bandeira (líder dos Amigos de Viana), contou com o alto apoio de Manuel Da Costa, comendador, empresário e filantropo, cuja dedicação e compromisso com o bem comum foram essenciais para tornar este momento possível.
RMA/MS






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