Humor realidade

Despertador, Ego, (falta de) Cultura e Hipocrisia

Cartoon: Stella Jurgen

A vida está cheia de pequenos dramas que parecem banais, mas que, quando observados de perto, tornam-se verdadeiros espetáculos de comédia. Entre a fé que se torna espetáculo, os heróis do “eu faço tudo sozinho”, embalagens que desafiam a lei da física e despertadores que conspiram contra nós, descobrimos que a humanidade é, acima de tudo, divertida e contraditória.

Os católicos de “Páscoa”…

Passou a Páscoa e os católicos de mesa cheia são o retrato mais irónico desta vida: passam o ano mergulhados em pequenas falcatruas, fofocas de corredor, e hipocrisias domésticas, mas chega a Páscoa e lá estão eles, ajoelhados diante da cruz, enxugando lágrimas como se fossem anjos encarnados. Entre pedaços de cordeiro ou de vaca e sobremesas que dariam inveja a qualquer convento, a fé vira espetáculo, uma verdadeira exibição de moral seletiva. Julgam vizinhos com a mesma rapidez que inventam um boato ou esquecem de devolver o troco, sempre com aquela convicção digna de sermão, cheia de teatralidade. É a fé em contraste com a vida, tão humana quanto contraditória, temperada com pitadas de gula e fofoca. E, ironicamente, muitos daqueles de mãos postas sobre o peito são justamente os que no dia a dia não seguem o que Jesus veio ensinar: continuam mesquinhos, prontos para o maldizer, para a fofoca e para mexericar sobre a vida alheia. Hoje, invento um mandamento novo: vivam a sua vida e deixem a dos outros, porque Jesus ´tá vendo.

 O clube dos “Eu Faço Tudo Sozinho”…

Há pessoas que nasceram para brilhar… ou para nos fazer rir às custas da própria arrogância. São os autoproclamados “fazem-tudo-sozinhos”, especialistas em transformar a vida num espetáculo de força de vontade que, na prática, é só teimosia e falta de noção.

Vê-los no supermercado é um caso de estudo. Transportam quatro sacos de compras, uma criança a chorar, o cachorro do vizinho e, ao mesmo tempo, tentam abrir a porta do carro com a chave que insiste em fazer birra. E, se lhe ofereces ajuda? “Não, não, eu consigo!” — diz ele com aquele sorriso entre heróico, masoquista e, às vezes, machista. Depois de cinco minutos de contorcionismo digno de circo, lá consegue… só para tropeçar na própria sacola e espalhar feijão pelo chão. Mas orgulhoso, claro. Porque pedir ajuda é coisa de fracos. “Eu faço tudo sozinho, diz ele!”. No trabalho, a história repete-se. Tarefa impossível? “Deixa comigo, eu resolvo!” E lá estão eles, teclado a pingar café, pasta a desaparecer do ecrã, e o Excel a gritar por misericórdia. Tudo controlado… na imaginação. Porque, na realidade, o “eu faço tudo sozinho” tem a mesma eficácia que um guarda-chuva furado num vendaval. Ninguém é bom sozinho, fica a dica.

O ápice da comédia acontece quando a vida decide dar-lhes uma rasteira: o carro não arranca, a torrada cai com a manteiga virada para o chão, e o gato decide que é hora de escalar a cortina ou.. falta ali uns dólares para cumprir algum sonho. É nesse instante que, pela primeira vez, se ouve um murmúrio quase humano: “Hum… talvez… só desta vez… eu precise… de ajuda.” Mas não se enganem: no minuto seguinte já estão a recompor-se, a erguer o queixo e a afirmar para todos os que ainda respiram: “Eu controlo tudo. Sempre.”

No fundo, estes heróis do “faço tudo sozinho” são uma dádiva: lembram-nos de rir da vida e de nós próprios. Porque por mais que se esforcem, por mais sacolas que carreguem ou tarefas impossíveis que abracem… a realidade insiste em mostrar que todos precisamos de alguém… mesmo que seja só para apanhar o feijão que caiu.

E, claro, nunca se esqueçam: nunca digam isso a eles. Senão quebram o ego em mil pedacinhos.

 O drama da embalagem invencível

Eu juro que não sou fraco… mas aquela embalagem de bolachas parecia protegida por soldados do exército suíço. Primeiro, tentei abrir com a unha. Resultado: unha lascada e zero bolachas. Então usei a tesoura. Resultado: uma espécie de explosão controlada, bolachas a voar pelo teclado e eu a parecer protagonista de um filme de ação.

Não satisfeito, recorri à faca de cozinha. Nessa altura, a embalagem já me olhava com desprezo, como se soubesse todos os meus segredos e estivesse prestes a revelá-los ao mundo. Finalmente, com um último golpe, consegui abrir. Vitória? Quase. Porque as bolachas, traumatizadas pela violência, estavam partidas. E então perguntei-me: por que é que as empresas fazem embalagens que mais parecem cofres de banco? Será um teste de paciência? Um plano secreto para exercitar a coordenação motora? Ou apenas uma conspiração para nos fazer comprar mais bolachas, já que algumas acabam sempre esmagadas?

No fim, comi os pedaços partidos e prometi a mim mesmo que da próxima vez tentaria abrir com diplomacia, chá de camomila e, quem sabe, até música suave. Mas todos sabemos que, no próximo pacote, a guerra recomeçará.

O drama dos cinco minutos…

O despertador toca e o meu cérebro entra em modo soneca eterna… como se a manhã fosse uma conspiração pessoal. Cada toque é uma batalha: tento levantar-me, mas a cama transforma-se num íman. Já tentei técnicas sofisticadas: colocar o despertador longe, usar música animada, até pedir à Alexa para me acordar com elogios motivacionais. Nada funciona. Quando finalmente me levanto, percebo que já é tarde, o café está frio e a roupa… bem, digamos que estou a vestir criatividade em vez de camisa. A conclusão? O despertador não é o meu inimigo. O meu inimigo é o sono que insiste em me segurar como se eu fosse um objecto de museu. No próximo capítulo da guerra matinal, estou a considerar negociar com ele: um acordo de “mais 5 minutos” por dia.

Os donos da cultura…

Sabem aqueles que se dizem “donos da cultura portuguesa”? Ah, eles existem! Andam por aí a corrigir tudo: “Isso não é folclore verdadeiro!”, “Fado tem de ser triste, não pode ser alegre!”, “Poesia? Só com rimas antigas, nada de modernices!”… Mas a verdade é que cultura não é propriedade privada, é buffet aberto: todo o mundo prova, mistura e sai com a boca cheia.

E o mais engraçado é quando tentam reproduzir tradições e erram redondamente. Já viram alguém a dançar o vira com sapatos de dança clássica? Ou a cantar Coimbra no estilo fado de Lisboa? É como tentar fazer pastel de nata com Nutella: sai estranho, mas todos riem e… acabam a comer na mesma. No fundo, estes “donos” confundem cultura com colecionáveis: querem ter selo de autenticidade, enquanto a própria cultura se ri deles. Folclore, fado, poesia, memes, tudo se mistura, e eles só ficam a olhar, espantados. Porque a cultura é de todos, é como o vento ou o rio Douro: ninguém segura, ninguém é dono. Mas se é de todos, que seja também respeitada e dignificada. É que todos podem usar o “coração de Viana” ou “muito ouro”, mas pelo menos informem-se de como se usa e quem pode usar e quando, já agora. É só uma sugestão!

Sejam felizes. E riam muito, não precisa é ser uns dos outros!

Romulo M. Ávila/MS

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