Ele dispara, nós pagamos

O Canadá abrirá o seu torneio do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026 em Toronto, às 15h do dia 12 de Junho de 2026, frente ao Qatar. Se o Canadá vencer este jogo, será a primeira vez que vencerá um jogo de um Mundial em solo canadiano.
O calendário de 2026 está dividido por três países, Canadá, Estados Unidos e México, estando o Canadá encarregado de acolher 13 jogos, distribuídos por 6 em Toronto e 7 em Vancouver. Ao analisar o número total de jogos a realizar, a participação do Canadá enquanto país anfitrião parece ser, por parte da UEFA, uma espécie de gesto simbólico de respeito hipócrita, talvez refletindo a ideia de que não temos o que é preciso para estar ao mesmo nível dos outros dois países anfitriões.
Na passada sexta-feira, durante a apresentação oficial do calendário do torneio em Washington D.C., o centro do mundo intelectual onde se pratica o “negócio do trumpismo”, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, desdobrou-se em elogios ao Presidente Trump, atribuindo-lhe o primeiro Prémio da Paz da FIFA. Este prémio de paz, nunca antes visto, é o mais recente capítulo da agressiva aproximação de Infantino a Trump, na antecâmara do torneio de 2026. O abandono da neutralidade política por parte de Infantino, para agradar ao ditador americano, demonstra até que ponto a FIFA está disposta a virar-se e a adotar uma cultura de corrupção para alcançar os seus objetivos. Talvez a FIFA quisesse minimizar a desilusão de Trump por não ter recebido o Prémio Nobel da Paz, pelo qual tanto fez campanha. Mas quem é a FIFA para politizar o futebol, o “jogo bonito”, através desta “bromance” com o atual destruidor do equilíbrio económico mundial, que coloca milhares de milhões de cidadãos num estado de incerteza e de empobrecimento?
A FIFA lucrará 9 mil milhões de dólares com o torneio de 2026, pelo que esta troca de elogios entre egos gigantes não é surpreendente. Investigações anteriores sobre práticas corruptas na FIFA não produziram resultados capazes de alterar uma cultura profundamente enraizada de autosserviço, mas todos compreendem que colocar Trump num pedestal é marketing na sua pior forma. Milhões de dólares serão gastos por governos e adeptos para garantir que os jogos se realizem, apesar da escassez de dinheiro, particularmente ao nível dos governos. Os nossos impostos deveriam ser usados de forma responsável, mas não o são. Olivia Chow continua a lamentar que Toronto não tenha fundos suficientes para acolher seis jogos, mas a sua queixa não foi reconhecida por outros níveis de governo. Assim, seremos nós, tu e eu, a financiar os jogos através do aumento dos impostos prediais e de taxas.
Sou adepto do “jogo bonito”, mas não um fanático que entrega a sua mente a jogadores milionários e a sistemas que geram lucros para os ricos, que beneficiam do nacionalismo exacerbado de milhares de milhões de cérebros futebolísticos “infetados”. O jogo e a sua corrupção económica e cultural podem proporcionar um meio temporário de esquecer os nossos verdadeiros problemas, mas não devemos esquecer que se trata apenas de um jogo, praticado em benefício da FIFA e de jogadores extremamente ricos.
Burocratas e políticos atribuirão um significado cultural nacionalista como justificação para a realização de campeonatos do mundo e os que estão no poder baterão oportunisticamente no tambor do patriotismo como forma de ganhar pontos políticos, sugerindo que a influência do desporto pode substituir o mérito, mesmo quando a equipa perde. Até que ponto nos tornámos superficiais ao ponto de prestarmos mais atenção à influência de um jogo de futebol do que àquela que, provavelmente, dedicamos às nossas famílias? Está na hora de adotarmos prioridades realistas, em vez de nos deixarmos transformar em sonhadores robotizados por uma bola de futebol.
Devemos compreender porque são os jogos aquilo que são: 90 minutos de euforia que, muitas vezes, acabam por esvaziar os sonhos implantados na nossa mente antes do apito inicial. Na edição do Milénio da semana passada, a capa desportiva exaltava o facto de a camisola portuguesa dever ser venerada e apoiada por todos nós. Aqueles, como eu, que amam o Canadá, deveriam sentir-se ofendidos por ignorarmos totalmente o país onde vivemos e por não demonstrarmos qualquer lealdade à sua seleção. Essa é a falsidade do desporto e a nossa própria falta de autenticidade enquanto canadianos.
Manuel DaCosta/MS
Editorial in English
He shoots, we pay
Canada will open their 2026 FIFA World Cup tournament in Toronto at 3pm on June 12th, 2026, against Qatar. If Canada wins the game, it will be the first time that Canada wins a world cup game on Canadian soil.
The 2026 schedule is divided between 3 countries, Canada, USA and Mexico with Canada scheduled to host 13 games divided by 6 in Toronto and 7 in Vancouver. When assessing the total number of games being played, Canada’s participation as host appears to be UEFA using Canada as a token of hypocritical respect, perhaps reflecting concerns that we don’t have what it takes to be hosts on an equal platform with the other 2 countries.
This past Friday during the unveiling of the schedule for the tournament in Washington DC which is the centre of the intellectual world where the business of Trumpism is practiced, FIFA’s president Gianni Infantino fell over himself to impress President Trump, awarding the first FIFA Peace Prize to the President. This never-before-seen Peace Prize is the latest in Infantino’s aggressive courtship of Trump ahead of the 2026 Tournament. Infantino’s abandonment of political neutrality to appease the American dictator shows the lengths to which FIFA will pivot and adopt a culture of corruption to achieve its objectives. Perhaps FIFA wanted to minimize Trump’s disappointment in not being awarded the Nobel Peace Prize, for which he campaigned so hard. But who is FIFA to politicize the beautiful game by bromancing with the current destroyer of the world economic balance by placing billions of citizens in a state of uncertainty and much poorer than they need to be?
FIFA will profit 9 billion dollars from the 2026 tournament, so the mutual stroking of massive egos is not surprising. Previous investigations into corruptive practices at FIFA have not yielded results which would change a culture of embedment of self-servitude, but everyone understands that placing Trump on a pedestal is marketing in its worst form. Millions of dollars will be spent by governments and fans to ensure the games happen despite the scarcity of money, particularly at government levels. Our taxes should be used responsibly but they are not. Olivia Chow continues to cry that Toronto doesn’t have sufficient funds to host 6 games, but her sulking hasn’t been acknowledged by other levels of government, therefore it will be you and I who will fund the games with increased property taxes and fees.
I am a fan of the beautiful game, but not a fanatic who will outsource my mind to millionaire players and systems that create profits for the rich who benefit from nationalistic chest thumping by billions of intellectually infected soccer brains. The game and its economic cultural corruption may provide a temporary means of forgetting our real problems, but we should not forget that it’s just a game being played for the benefit of FIFA and very wealthy players.
Bureaucrats and politicians will attach nationalistic cultural significance as the causation to hold world tournaments and those in power will opportunistically beat the drum for their country as a means of gaining political points suggesting the sports influence can substitute merit even when a team loses. How shallow have we become that we spend more time paying attention to the influence of a soccer game than we probably give to our families. It’s time to adopt realistic priorities instead of allowing ourselves to become dreamers and robotized by a soccer ball.
Embrace understanding why the games are what they are. 90 minutes of euphoria which often can deflate the dreams implanted in your brain inserted before the game. In last week’s Milenio edition the sports cover page exalted the fact that the Portuguese shirt was to be revered and supported by all of us. Those like myself who love Canada should take offence that we totally ignore the country we live in and show no loyalty to the team. That’s the phoniness of sport and our disingenuousness as Canadians.
Manuel DaCosta/MS







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