Desporto

Um líder menos imune e um perseguidor mais perto

Créditos: JN

O FC Porto falhou onde era mais forte, o Sporting CP cresce na sombra e o SL Benfica desaparece da luta

A jornada 28 da Liga Portugal não trouxe uma mudança na liderança, mas mexeu, e muito, com a forma como se olha para a reta final do campeonato. O FC Porto continua no topo e mantém-se como o principal candidato ao título, mas deixou escapar pontos de uma maneira pouco habitual. E isso, mais do que o resultado em si, levanta sinais interessantes.

Durante grande parte da época, o Porto construiu a sua liderança com base numa identidade muito clara: intensidade constante, crença até ao fim e uma capacidade quase sistemática de resolver jogos nos descontos. Não foram poucos os pontos conquistados nos últimos minutos, muitas vezes arrancados a ferros, quando o empate já parecia fechado. Era uma marca de equipa campeã.

Por isso, o empate nesta jornada tem um peso simbólico diferente. Não foi apenas mais um jogo em que se perderam dois pontos: foi um jogo em que o Porto sofreu no fim aquilo que tantas vezes fez aos outros. Um golo nos descontos, a frio, quando tudo parecia controlado. Uma espécie de espelho invertido da própria época. Mas a maior ironia foi o facto do Porto ter marcado o 2-1 nos descontos e, minutos depois, ter sofrido o tento do empate.

Até esse momento, a exibição portista não tinha sido particularmente brilhante, mas também não levantava grandes dúvidas. A equipa estava organizada, competitiva, com mais iniciativa. No entanto, voltou a faltar alguma lucidez no último terço, aquele último passe, aquela decisão que transforma domínio em vantagem confortável.

E depois veio o detalhe que muda tudo. Um momento de desconcentração, uma perda de controlo emocional ou simplesmente mérito do adversário: no futebol, essas linhas são sempre ténues. O certo é que o Porto não soube fechar o jogo. E quando assim é, arrisca-se sempre a pagar caro.

Ainda assim, convém colocar as coisas em perspetiva. Este Porto continua a ser a equipa mais consistente do campeonato. Continua a depender apenas de si e continua a mostrar, na maioria dos jogos, um nível competitivo superior aos rivais. Um empate, mesmo com este sabor amargo, não apaga meses de solidez.

Mas deixa um aviso: a margem de erro está a diminuir. E há alguém logo atrás pronto para aproveitar.

O Sporting CP fez exatamente isso. Sem entrar em euforias, sem precisar de uma exibição de luxo, cumpriu a sua missão: ganhou e encurtou distâncias. E fê-lo com a tranquilidade de quem percebe o momento.

O Sporting tem sido, talvez, a equipa mais pragmática nesta fase da época. Não impressiona sempre, não domina sempre, mas raramente falha quando tem de somar três pontos. E isso, num campeonato longo, é muitas vezes o fator decisivo.

Há uma maturidade evidente na forma como a equipa aborda os jogos. Sabe quando acelerar, sabe quando baixar o ritmo, sabe sofrer quando é preciso. Não entra em pânico, não se desorganiza facilmente. E tem jogadores capazes de resolver em momentos-chave, mesmo quando o coletivo não está particularmente inspirado.

Mais do que uma perseguição feita de exibições brilhantes, o Sporting constrói a sua candidatura com base na consistência. Vai somando, vai pressionando, vai obrigando o líder a manter um nível elevado. E isso começa a ter impacto.

Porque se durante muito tempo o Porto parecia confortável na liderança, agora sente mais de perto essa pressão. E jogos como este, em que se perdem pontos no fim, podem ter um efeito psicológico importante.

Já o SL Benfica confirmou aquilo que vinha a ser evidente nas últimas semanas. O empate nesta jornada não só representa mais pontos perdidos, como praticamente encerra qualquer discussão sobre o título.

A equipa encarnada voltou a mostrar os mesmos problemas que têm marcado a época: dificuldade em transformar posse em perigo, falta de criatividade no último terço e uma previsibilidade que facilita a vida aos adversários. Há muito controlo, mas pouca capacidade de ruptura.

O mais preocupante, no entanto, é a sensação de falta de energia. O Benfica parece uma equipa sem chama, sem urgência, sem aquela agressividade competitiva que normalmente define quem está na luta. Mesmo quando precisa de arriscar, não consegue sair do seu registo habitual.

O empate acaba por ser coerente com o que se vê em campo. E o afastamento da luta pelo título, mais do que matemático, é emocional. Falta-lhe crença, falta-lhe dinâmica, falta-lhe aquele impulso que faz a diferença nas fases decisivas.

Assim, a jornada 28 acaba por redesenhar o campeonato sem alterar a liderança. O Porto continua na frente e continua a ser o mais forte candidato, mas deixou escapar pontos de uma forma que pode ter impacto. O Sporting aproxima-se, firme e paciente, pronto para aproveitar qualquer novo deslize. E o Benfica fica definitivamente para trás, fora de uma corrida que nunca conseguiu sustentar de forma consistente.

Entramos agora numa fase em que cada detalhe conta. E, ironicamente, foi precisamente num detalhe, nos descontos, que esta jornada deixou a sua maior marca.

Paulo Freitas – Crónica escrita com análises e ponto de vista do seu autor.

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