F. C. Porto é campeão nacional: O ABC que André Villas-Boas construiu

Viagem às figuras, momentos e factos do 31.º título de campeão nacional. Uma revolução arrebatadora de André Villas-Boas, que encontrou em Francesco Farioli o treinador ideal, da estratégia ao espírito do clube. A “família portista” sofreu uma perda irreparável, mas juntou-a ao propósito coletivo.
A – André Villas-Boas
Aos 48 anos, sagra-se campeão nacional pela primeira vez como presidente, na segunda época à frente do F. C. Porto. E se a primeira foi dura e turbulenta, Villas-Boas virou a página de uma maneira notável, como se verá em todas as letras que se seguem. Do treinador ao mercado, passando pela comunicação e as contas, a recuperação foi absoluta.
B – Bednarek
Capitão sem braçadeira, líder por natureza, um farol de experiência e competência no comando da muralha defensiva, que ainda foi à área contrária causar estragos e marcar o golo do título. Abriu a legião polaca no Dragão e rapidamente cortou para fora a desconfiança que poderia existir por chegar de uma equipa (Southampton) que desceu de divisão.
C – Capitão
Jorge Costa partiu repentinamente a 5 de agosto de 2025 e o F. C. Porto ficou sem chão, atirado de novo para o luto, meio ano depois do falecimento de Pinto da Costa. Do abalo se fez força, como o Bicho quereria que fosse. O capitão sorria, porque sentia que os dragões voltavam a ter uma equipa, prenúncio de um sucesso que todos dedicaram ao número 2.
D – Diogo Costa
Um dos poucos que transitou da época anterior e um pilar que o F. C. Porto tanto precisava, dentro e fora de campo, à medida da braçadeira. Colecionou folhas limpas, mas nem sempre só à custa dos outros dez, que poucas vezes permitiram aproximações perigosas. Disse presente quando foi preciso, com classe e agilidade, sendo ainda um elemento essencial na construção de jogo.
E – Emprestados
Se o orçamento não dava para tudo, a SAD arranjou forma de resolver. Kiwior chegou cedido com a compra agendada para 2026, ano em que Seko Fofana e Terem Moffi vieram por empréstimo para colmatar lacunas que se abriram. E o médio acabou mesmo por ter um papel decisivo, com golos valiosos e muita experiência.
F – Francesco Farioli
A par de André Villas-Boas, o grande obreiro do 31.⁰ título. O treinador, 37 anos, foi o chefe da “Famiglia Portista” e cativou os adeptos desde o primeiro dia. Devolveu-lhes a esperança à boleia de uma equipa competitiva, intensa e consistente, construída e ajustada em andamento, mas sempre com todos os jogadores a sentirem-se importantes. Campeão nacional pela primeira vez, renovou contrato logo em janeiro.
G – Gabri Veiga
O camisola 10 chegou ao Dragão ainda antes do Mundial de Clubes, mas é em 2025/26 que tudo começa para ele. Regressado da Arábia Saudita, o médio galego levou tempo até recuperar a melhor forma física, mas foi sempre trilhando o caminho com golos e assistências.
H – História
Das profundas desilusões da época anterior ao momento estrutural do clube, com um presidente ainda recente e num quadro de dificuldade financeira, este pode muito bem ser um dos campeonatos mais importantes da história do F. C. Porto.
I – Invasão
De apoio é que o F. C. Porto nunca se pôde queixar. O Dragão teve a média de assistência mais elevada de sempre e, fora de portas, se mais bilhetes houvesse, mais se vendiam, em praticamente todas as deslocações, do Minho à Madeira.

J – José Pereira da Costa
O dirigente com a pasta das finanças fica diretamente ligado ao sucesso. A situação financeira do clube era extrema em 2024, houve, inclusive, salários em atraso. A dívida da SAD e o acordo com a Ithaka foram renegociados, e o mercado planeado (e exposto) ao detalhe, numa reabilitação ainda em curso, mas que deixa o clube respirar tranquilamente.
K – Kiwior
Um dos movimentos de mercado mais surpreendentes. Contratado ao Arsenal por empréstimo (compra programada para este verão), o central formou a “Polish Wall” com Bednarek. Dois perfis que se complementaram da melhor forma, com Jakub a jogar de smoking e ainda dando uma ajuda na lateral esquerda.
L – Lesões
Porventura o maior desafio da época. Nehuen Pérez rompeu o tendão de Aquiles em setembro, mas o azar não ficou por aí, com Farioli a perder Luuk de Jong a dois tempos: em novembro foi mesmo de vez, devido a uma rotura de ligamentos. Igual problema sofreu Samu, em fevereiro, deixando o F. C. Porto apenas com Deniz Gul e Terem Moffi.
M – Mercado
A base de toda a transformação do F. C. Porto, que virou o plantel do avesso. Chegaram dez jogadores no verão (mais quatro no inverno) para quase outras tantas saídas, num investimento de cerca de 80 milhões de euros e um encaixe praticamente ao mesmo nível. Vieram nomes sonantes e pesos pesados, jogadores experientes e outros para potenciar. Victor Froholdt foi o mais caro (20 milhões de euros) mas já parece barato por esta altura, com Francisco Conceição a ser transferido com 32 milhões de euros.
N – Números
Até selar o título, os dragões somaram 85 pontos, venceram 27 jogos, empataram quatro e perderam apenas um, no reduto do Casa Pia. Marcaram 64 golos e sofreram 15, destacando-se a melhor primeira volta da história do futebol português, apenas com um empate (em casa com o Benfica) e 16 triunfos. Em aberto está ainda o recorde de pontos da I Liga, que pertence ao FC Porto e fixou-se nos 91 pontos, em 2021/22.
O – Oskar
O miúdo polaco chegou com 17 anos ao Dragão, no mercado de inverno, proveniente do Jagiellonia Bialystok. Oskar Pietuszewski teve um impacto imediato: nos primeiros minutos pelo F. C. Porto, arrancou o penálti que abriu caminho ao triunfo (1-0) em Guimarães. Filho de Bednarek e irmão de Kiwior, como brincam no Olival, devolveu irreverência ao ataque portista e assinou um golaço na Luz, com Otamendi nas covas.
P – Pablo Rosario
Médio, defesa-central, lateral… a Pablo Rosario só lhe faltou jogar no ataque e à baliza. Trabalhou com Farioli no Nice e foi um pedido do treinador, que sabia ter no internacional dominicano uma espécie de extensão em campo. Experiente, 29 anos, e sempre muito sereno a jogar, transformou-se num elemento valiosíssimo do plantel do novo campeão.
Q – Quilómetros
Intensidade é um dos conceitos que define esta equipa do F. C. Porto, que correu mais do que os adversários em todos os jogos que realizou. Com o inglês Callum Walsh como preparador físico, com quem Farioli já trabalhara, os dragões exibiram grande capacidade física, mesmo quando o calendário apertava, também à custa de uma utilização criteriosa dos jogadores.
R – Rotação
Diretamente associada à letra anterior, Farioli foi bastante metódico na gestão dos jogadores, não só ao longo do jogo, mas também de partida para partida. Não teve assombro em quase partir o plantel ao meio entre campeonato e eliminatórias da Liga Europa, ficando muito perto de, pelo menos, atingir, pelo menos, as meias-finais. Alan Varela-Pablo, Thiago Silva-Kiwior, Gabri Veiga-Mora, Pepê-William e Fofana-Froholdt foram algumas das duplas que o italiano foi gerindo.
S – Samu
O goleador da equipa começou a primeira parte da época em alta rotação, com 18 golos antes de 2026. Na viragem do ano, atravessou um período mais cinzento até a época terminar em fevereiro, com uma lesão grave. No total, foram 20 golos e uma evolução notória no jogo de apoios e associativo. Em julho, a SAD passou a deter 100% do passe do internacional espanhol, que muito provavelmente iria ao Mundial.
T – Thiago Silva
Uma conversa, uma carta de André Villas-Boas e um regresso a casa, 20 anos depois. O veterano central brasileiro, 41 anos, deixou uma história por escrever no F. C. Porto e quis terminá-la, chegando em janeiro com a bagagem recheada de títulos, competitividade ao mais alto nível e o mesmo profissionalismo de sempre. Outro líder a servir de exemplo, voz tão serena quanto respeitada no balneário.
U – UEFA
Esta época também serviu para devolver o F. C. Porto a caminhos mais normais nas competições europeias, depois de uma Liga Europa sofrível em 2024/25 e um Mundial de Clubes desastroso. Qualificado entre os oito primeiros na segunda prova da UEFA, eliminou o Estuguarda e, nos “quartos”, caiu frente ao Nottingham Forest numa eliminatória ingrata. Na próxima época, regressa à Liga dos Campeões, prova na qual ainda é uma das equipas com mais presenças.
V – Victor Froholdt
Para muitos, o melhor jogador do campeonato. O médio que o FC Porto contratou ao Copenhaga, internacional pela Dinamarca, foi uma das caras novas da revolução portista e deixou os adeptos rendidos desde as primeiras cavalgadas e recuperações de bola. Um talento ainda jovem, 20 anos, e um dos pilares da estratégia portista, com oito golos e sete assistências.
W – William Gomes
Chegou ao Dragão a meio da fatídica época 2024/25 e teve na atual a estabilidade necessária para crescer. O extremo brasileiro é o melhor marcador da equipa a seguir a Samu, com 13 golos, um deles entre os melhores do campeonato, no triunfo por 2-1 em Alvalade.
Y – Ying-Yang
O grupo do F. C. Porto foi desenhado numa mistura interessante entre a bagagem da experiência e a irreverência da juventude. Um equilíbrio que permitiu ter em campo ao mesmo tempo, por exemplo, um jogador de 41 anos e outro de 17.
X – Xadrez
Farioli foi fiel do início ao fim ao 4x3x3, mas com a equipa capaz de várias coisas, da pressão alta a um bloco mais recuado. Trunfos importantes foram ainda as bolas paradas, que renderam dezenas de golos à mercê do estudo e criatividade de Lino Godinho e Lucho González, aplicados à técnica dos executantes.
Z – Zaidu
Um dos quatro do atual plantel (Eustáquio saiu a meio) que sabia o que era ser campeão pelo F. C. Porto. Com a CAN pelo meio, esteve algum tempo sem utilização, mas reapareceu a um nível muito competente quando a equipa mais precisava, na fase mais tensa da temporada.
JN/MS







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