Futebol

F. C. Porto é campeão nacional: O ABC que André Villas-Boas construiu

FC Porto’s players celebrate their Portuguese League’s 31st title after winning the Portuguese League football match between FC Porto and FC Alverca at Dragao stadium in Porto, on May 2, 2026. Porto were crowned Portuguese champions with two games to spare after a 1-0 win over Alverca today. (Photo by Miguel RIOPA / AFP)

Viagem às figuras, momentos e factos do 31.º título de campeão nacional. Uma revolução arrebatadora de André Villas-Boas, que encontrou em Francesco Farioli o treinador ideal, da estratégia ao espírito do clube. A “família portista” sofreu uma perda irreparável, mas juntou-a ao propósito coletivo.

A – André Villas-Boas

Aos 48 anos, sagra-se campeão nacional pela primeira vez como presidente, na segunda época à frente do F. C. Porto. E se a primeira foi dura e turbulenta, Villas-Boas virou a página de uma maneira notável, como se verá em todas as letras que se seguem. Do treinador ao mercado, passando pela comunicação e as contas, a recuperação foi absoluta.

B – Bednarek

Capitão sem braçadeira, líder por natureza, um farol de experiência e competência no comando da muralha defensiva, que ainda foi à área contrária causar estragos e marcar o golo do título. Abriu a legião polaca no Dragão e rapidamente cortou para fora a desconfiança que poderia existir por chegar de uma equipa (Southampton) que desceu de divisão.

C – Capitão

Jorge Costa partiu repentinamente a 5 de agosto de 2025 e o F. C. Porto ficou sem chão, atirado de novo para o luto, meio ano depois do falecimento de Pinto da Costa. Do abalo se fez força, como o Bicho quereria que fosse. O capitão sorria, porque sentia que os dragões voltavam a ter uma equipa, prenúncio de um sucesso que todos dedicaram ao número 2.

D – Diogo Costa

Um dos poucos que transitou da época anterior e um pilar que o F. C. Porto tanto precisava, dentro e fora de campo, à medida da braçadeira. Colecionou folhas limpas, mas nem sempre só à custa dos outros dez, que poucas vezes permitiram aproximações perigosas. Disse presente quando foi preciso, com classe e agilidade, sendo ainda um elemento essencial na construção de jogo.

E – Emprestados

Se o orçamento não dava para tudo, a SAD arranjou forma de resolver. Kiwior chegou cedido com a compra agendada para 2026, ano em que Seko Fofana e Terem Moffi vieram por empréstimo para colmatar lacunas que se abriram. E o médio acabou mesmo por ter um papel decisivo, com golos valiosos e muita experiência.

F – Francesco Farioli

A par de André Villas-Boas, o grande obreiro do 31.⁰ título. O treinador, 37 anos, foi o chefe da “Famiglia Portista” e cativou os adeptos desde o primeiro dia. Devolveu-lhes a esperança à boleia de uma equipa competitiva, intensa e consistente, construída e ajustada em andamento, mas sempre com todos os jogadores a sentirem-se importantes. Campeão nacional pela primeira vez, renovou contrato logo em janeiro.

G – Gabri Veiga

O camisola 10 chegou ao Dragão ainda antes do Mundial de Clubes, mas é em 2025/26 que tudo começa para ele. Regressado da Arábia Saudita, o médio galego levou tempo até recuperar a melhor forma física, mas foi sempre trilhando o caminho com golos e assistências.

H – História

Das profundas desilusões da época anterior ao momento estrutural do clube, com um presidente ainda recente e num quadro de dificuldade financeira, este pode muito bem ser um dos campeonatos mais importantes da história do F. C. Porto.

I – Invasão

De apoio é que o F. C. Porto nunca se pôde queixar. O Dragão teve a média de assistência mais elevada de sempre e, fora de portas, se mais bilhetes houvesse, mais se vendiam, em praticamente todas as deslocações, do Minho à Madeira.

Foto: Pedro Correia

J – José Pereira da Costa

O dirigente com a pasta das finanças fica diretamente ligado ao sucesso. A situação financeira do clube era extrema em 2024, houve, inclusive, salários em atraso. A dívida da SAD e o acordo com a Ithaka foram renegociados, e o mercado planeado (e exposto) ao detalhe, numa reabilitação ainda em curso, mas que deixa o clube respirar tranquilamente.

K – Kiwior

Um dos movimentos de mercado mais surpreendentes. Contratado ao Arsenal por empréstimo (compra programada para este verão), o central formou a “Polish Wall” com Bednarek. Dois perfis que se complementaram da melhor forma, com Jakub a jogar de smoking e ainda dando uma ajuda na lateral esquerda.

L – Lesões

Porventura o maior desafio da época. Nehuen Pérez rompeu o tendão de Aquiles em setembro, mas o azar não ficou por aí, com Farioli a perder Luuk de Jong a dois tempos: em novembro foi mesmo de vez, devido a uma rotura de ligamentos. Igual problema sofreu Samu, em fevereiro, deixando o F. C. Porto apenas com Deniz Gul e Terem Moffi.

M – Mercado

A base de toda a transformação do F. C. Porto, que virou o plantel do avesso. Chegaram dez jogadores no verão (mais quatro no inverno) para quase outras tantas saídas, num investimento de cerca de 80 milhões de euros e um encaixe praticamente ao mesmo nível. Vieram nomes sonantes e pesos pesados, jogadores experientes e outros para potenciar. Victor Froholdt foi o mais caro (20 milhões de euros) mas já parece barato por esta altura, com Francisco Conceição a ser transferido com 32 milhões de euros.

N – Números

Até selar o título, os dragões somaram 85 pontos, venceram 27 jogos, empataram quatro e perderam apenas um, no reduto do Casa Pia. Marcaram 64 golos e sofreram 15, destacando-se a melhor primeira volta da história do futebol português, apenas com um empate (em casa com o Benfica) e 16 triunfos. Em aberto está ainda o recorde de pontos da I Liga, que pertence ao FC Porto e fixou-se nos 91 pontos, em 2021/22.

O – Oskar

O miúdo polaco chegou com 17 anos ao Dragão, no mercado de inverno, proveniente do Jagiellonia Bialystok. Oskar Pietuszewski teve um impacto imediato: nos primeiros minutos pelo F. C. Porto, arrancou o penálti que abriu caminho ao triunfo (1-0) em Guimarães. Filho de Bednarek e irmão de Kiwior, como brincam no Olival, devolveu irreverência ao ataque portista e assinou um golaço na Luz, com Otamendi nas covas.

P – Pablo Rosario

Médio, defesa-central, lateral… a Pablo Rosario só lhe faltou jogar no ataque e à baliza. Trabalhou com Farioli no Nice e foi um pedido do treinador, que sabia ter no internacional dominicano uma espécie de extensão em campo. Experiente, 29 anos, e sempre muito sereno a jogar, transformou-se num elemento valiosíssimo do plantel do novo campeão.

Q – Quilómetros

Intensidade é um dos conceitos que define esta equipa do F. C. Porto, que correu mais do que os adversários em todos os jogos que realizou. Com o inglês Callum Walsh como preparador físico, com quem Farioli já trabalhara, os dragões exibiram grande capacidade física, mesmo quando o calendário apertava, também à custa de uma utilização criteriosa dos jogadores.

R – Rotação

Diretamente associada à letra anterior, Farioli foi bastante metódico na gestão dos jogadores, não só ao longo do jogo, mas também de partida para partida. Não teve assombro em quase partir o plantel ao meio entre campeonato e eliminatórias da Liga Europa, ficando muito perto de, pelo menos, atingir, pelo menos, as meias-finais. Alan Varela-Pablo, Thiago Silva-Kiwior, Gabri Veiga-Mora, Pepê-William e Fofana-Froholdt foram algumas das duplas que o italiano foi gerindo.

S – Samu

O goleador da equipa começou a primeira parte da época em alta rotação, com 18 golos antes de 2026. Na viragem do ano, atravessou um período mais cinzento até a época terminar em fevereiro, com uma lesão grave. No total, foram 20 golos e uma evolução notória no jogo de apoios e associativo. Em julho, a SAD passou a deter 100% do passe do internacional espanhol, que muito provavelmente iria ao Mundial.

T – Thiago Silva

Uma conversa, uma carta de André Villas-Boas e um regresso a casa, 20 anos depois. O veterano central brasileiro, 41 anos, deixou uma história por escrever no F. C. Porto e quis terminá-la, chegando em janeiro com a bagagem recheada de títulos, competitividade ao mais alto nível e o mesmo profissionalismo de sempre. Outro líder a servir de exemplo, voz tão serena quanto respeitada no balneário.

U – UEFA

Esta época também serviu para devolver o F. C. Porto a caminhos mais normais nas competições europeias, depois de uma Liga Europa sofrível em 2024/25 e um Mundial de Clubes desastroso. Qualificado entre os oito primeiros na segunda prova da UEFA, eliminou o Estuguarda e, nos “quartos”, caiu frente ao Nottingham Forest numa eliminatória ingrata. Na próxima época, regressa à Liga dos Campeões, prova na qual ainda é uma das equipas com mais presenças.

V – Victor Froholdt

Para muitos, o melhor jogador do campeonato. O médio que o FC Porto contratou ao Copenhaga, internacional pela Dinamarca, foi uma das caras novas da revolução portista e deixou os adeptos rendidos desde as primeiras cavalgadas e recuperações de bola. Um talento ainda jovem, 20 anos, e um dos pilares da estratégia portista, com oito golos e sete assistências.

W – William Gomes

Chegou ao Dragão a meio da fatídica época 2024/25 e teve na atual a estabilidade necessária para crescer. O extremo brasileiro é o melhor marcador da equipa a seguir a Samu, com 13 golos, um deles entre os melhores do campeonato, no triunfo por 2-1 em Alvalade.

Y – Ying-Yang

O grupo do F. C. Porto foi desenhado numa mistura interessante entre a bagagem da experiência e a irreverência da juventude. Um equilíbrio que permitiu ter em campo ao mesmo tempo, por exemplo, um jogador de 41 anos e outro de 17.

X – Xadrez

Farioli foi fiel do início ao fim ao 4x3x3, mas com a equipa capaz de várias coisas, da pressão alta a um bloco mais recuado. Trunfos importantes foram ainda as bolas paradas, que renderam dezenas de golos à mercê do estudo e criatividade de Lino Godinho e Lucho González, aplicados à técnica dos executantes.

Z – Zaidu

Um dos quatro do atual plantel (Eustáquio saiu a meio) que sabia o que era ser campeão pelo F. C. Porto. Com a CAN pelo meio, esteve algum tempo sem utilização, mas reapareceu a um nível muito competente quando a equipa mais precisava, na fase mais tensa da temporada.

JN/MS

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