Futebol

“A conquista mais importante é a que está para acontecer” – Vítor Campelos

vitor campelos - milenio stadium

 

Diz-nos que, em conjunto com a sua equipa técnica, ainda sonha muito alto. Até aos dias de hoje, Vítor Campelos tem escrito na sua história de treinador capítulos recheados de conquistas – não esquecendo nunca aqueles que o apoiam e que caminham consigo, lado a lado, nas vitórias e nas derrotas. Profissional dedicado, apaixonado não só pelo desporto – no seu todo, já que confessa que também se interessa por outras modalidades – como também pelo cinema, o treinador do Desportivo de Chaves, que conseguiu a promoção à I Liga na época passada, após uma temporada bastante conturbada e muito afetada pela pandemia, falou com o nosso jornal acerca do seu percurso profissional – dos momentos bons… e dos menos bons, como a mais recente eliminação prematura da Taça de Portugal. Como o próprio Vítor Campelos diz, aliada a toda a qualidade e organização do grupo, tem que haver sempre uma pontinha de sorte – mas até essa dá muito trabalho!

vitor campelos - milenio stadiumMilénio Stadium: Ainda que muitos tenham duvidado – e tenham inclusivamente dito que o clube ia lutar para não descer – o Desportivo de Chaves fez um fantástico trabalho na temporada passada que culminou na promoção à I Liga. O caminho nem sempre foi fácil, e a pandemia fez tudo menos ajudar. Ainda assim, que memórias ficaram dessa época?
Vítor Campelos: Foi sem dúvida um ano muito atribulado, até porque tivemos imensos casos de Covid, tivemos inclusive um jogador que teve que fazer uma pequena intervenção cirúrgica. Foi uma pré-época atípica porque tínhamos que treinar com grupos diferentes e por isso foi muito difícil desde o início trabalhar o nosso modelo de jogo e a nossa forma de jogar, até porque não tínhamos o plantel todo fechado. É certo que a determinada altura da época as pessoas estavam um pouco desacreditadas, mas nós, enquanto grupo, sabíamos que quando estivéssemos todos juntos – porque esse foi o nosso lema: “todos juntos” – teríamos uma equipa extremamente forte. E foi isso que aconteceu. A partir de uma determinada altura, recordo-me que foi antes do jogo com o Covilhã, demos o “click” e creio que a partir desse jogo, com a vitória na Covilhã e com a vitória em Coimbra, frente à Académica, conseguimos fazer uma época fantástica em que aquilo que nós sempre fizemos e falámos foi que teria que haver muitas sinergias nos nossos pensamentos, pensamento sempre muito positivo e que todos estivéssemos muito unidos. E todos juntos teríamos uma equipa forte e que podiamos alcançar os nossos objetivos, como acabámos por alcançar.

MS: Neste regresso ao principal escalão, o clube tem continuado a mostrar que qualidade é algo que não falta – e grande parte dos jogadores atuais são os mesmos que disputaram a Liga 2 na temporada passada. É prova de que há muito talento “escondido” ou até, de alguma forma, desvalorizado em Portugal ?
VC: Tentámos ficar com uma base da época passada, se bem que após o fecho do mercado ainda saíram jogadores influentes. Mas concordo plenamente que quer da II Liga e mesmo do Campeonato de Portugal e III Liga há jovens com bastante talento e muitas das vezes as oportunidades é que teimam em não aparecer. Mas estou convicto que muitos dos jogadores que jogam em divisões inferiores, tendo uma oportunidade, vão mostrar que na II Liga, III Liga e mesmo no Campeonato de Portugal há jovens com grande talento. Agora começámos bem o campeonato, mantivemos uma base da época passada e como é óbvio já estão enquadrados e já estão por dentro do nosso modelo de jogo, o que também ajudou os novos jogadores a integrarem-se mais facilmente.

MS: As vitórias sobre o Sporting e o Braga foram ambas conquistas históricas no clube. Chegou a afirmar que em Braga o Chaves triunfou com algum sofrimento mas que também conseguiu beneficiar de uma pontinha de sorte. Mas costuma dizer-se que, em alguns casos, a sorte dá trabalho…
VC: É óbvio que em Alvalade e em Braga foram vitórias históricas porque desde que o Chaves existe isso nunca aconteceu, mas para nós realmente o importante são os três pontos porque sabemos que o nosso caminho ainda é longo, sabemos que o nosso primeiro objetivo é a manutenção na I Liga, e alcançar os pontos que nos deem essa consolidação do Chaves na I Liga. Agora, como é óbvio, em termos mediáticos e mesmo em termos de visibilidade as vitórias frente ao Sporting e em Braga foram realmente importantes. A sorte dá muito trabalho. Mais que tudo e jogando em casa de equipas ditas mais fortes, a organização, a concentração, são sempre fundamentais. Já sabemos que o budget, o orçamento das equipas, em alguns casos é 20 vezes superior ao plantel do Chaves porque saiu um estudo do Transfermarket que diz que o budget do Chaves é o mais baixo desta I Liga, e por isso fomos falando durante a semana que os jogadores tinham que acreditar muito neles, tinham que acreditar muito nos colegas, acreditar muito no trabalho que estava a ser feito e, como é óbvio, nestes jogos, aliado a toda a nossa qualidade e organização tem que haver sempre uma pontinha de sorte e foi isso que aconteceu. Agora foi uma vitória inteiramente merecida por aquilo que demonstrámos e fizemos durante os 90 minutos e foi muito saborosa.

MS: Entretanto, mais recentemente, também se deu a situação contrária: a falta de sorte – e um final de loucos – ditou o afastamento do Chaves da Taça de Portugal. Acredito que agora o foco esteja em conseguir bons resultados na Liga mas também na Taça da Liga…
VC: Sim, foi uma saída prematura da Taça de Portugal. Claro está que nós queríamos chegar o mais longe possível, até porque a Taça de Portugal é a prova rainha das competições portuguesas, agora sabemos que na realidade aquilo que é extremamente importante para nós e que nos focamos mais nesta época é na manutenção e consolidar o Chaves na I Liga. Ficámos tristes, até porque defrontámos uma equipa de divisão inferior mas também é demonstrativo que em Portugal, em todos os escalões de equipas, trabalham muito bem, são equipas muito organizadas, como foi o caso do Valadares, que nós defrontamos. Como é óbvio não servirá de desculpa o facto de termos jogado num piso sintético ao qual não estamos adaptados e os nossos adversários estavam muito mais adaptados, mas realmente quando acontece isto também há sempre um ligeiro relaxamento e a concentração não está ao mais alto nível e foi isso que aconteceu e que ditou o nosso afastamento da Taça de Portugal. Sim, também temos a Taça da Liga, prova em que também queremos chegar o mais longe possível, mas como já disse o nosso foco total, a nossa primazia sempre estará no campeonato.

MS: O Vitor tem promovido também, ao longo destas épocas no comando do Chaves, algumas estreias de jovens jogadores: foi o caso, por exemplo, do médio Edu Borges. Enquanto treinador é importante para si dar a oportunidade a vários jogadores para mostrarem o seu potencial?
VC: Para além de, como é óbvio, querermos conseguir atingir os nossos objetivos em termos de resultados, nós enquanto equipa técnica – e quando falo em mim falo sempre na equipa técnica, o Marco Alves, o Fernando Batista, o João Pedro Magalhães e o Rúben Gomes – temos também algo que já nos é intrínseco, e que já acontece há alguns anos que já trabalhamos juntos, que é promover jogadores. Já aconteceu isso, por exemplo, com o Raphinha, que nesta altura está a jogar no Barcelona, em que nós fomos a primeira equipa técnica que ele teve em Portugal, com o Tyler Boyd, a jogar no Besiktas atualmente, o Óscar Estupiñan que agora está a jogar no Hull City, e mesmo agora no caso do Chaves em que o Aleksandro foi jogar para o Lille, o Batxi e o Kevin Pina foram para o Krasnodar… Nós temos muito sempre a intenção de potenciar e ajudar os jogadores a evoluir, até porque eu tenho um bocadinho como lema que ainda antes do jogador está o homem e nós queremos muito ajudar a potenciar as qualidades dos jogadores e também ajudá-los, quando for possível, a serem melhores pessoas e a serem melhores seres humanos.
O Edu é um miúdo que tem grande potencial, que pertence às camadas jovens do Chaves, é natural de Chaves, é um miúdo que trabalha muito bem, um miúdo muito dedicado. Estamos extremamente felizes por lhe ter dado uma oportunidade porque ele correspondeu e agora tem que dar continuidade ao seu trabalho para que possa ser utilizado mais vezes.

MS: A propósito, teve também a experiência no Vitória SC B, onde orientou atletas que se estreiam em campeonatos profissionais – o que é que isso lhe acrescentou enquanto treinador?
VC: Sim, eu tive a oportunidade de trabalhar no Vitória B, num escalão em que há a tradição de jogadores que vêm dos juniores para os campeonatos profissionais – vai um bocadinho de encontro aquilo que eu já disse anteriormente. Tive oportunidade de trabalhar com jovens jogadores de grande qualidade, jogadores que ambicionam chegar a patamares mais elevados, já dei o exemplo do Raphinha e do Tyler Boyd, do Dalbert, que também está no Inter de Milão, do Konan que está no All-Nassr, na Arábia Saudita, foram todos jogadores que passaram por nós e que ajudámos a evoluir e também nós tivemos a oportunidade de evoluir enquanto treinadores, porque também estamos sempre a aprender e aprendemos muito com eles. E por isso trabalhar uma equipa B é trabalhar com o que há de melhor num futuro próximo.

MS: Teve também algumas passagens em clubes fora de Portugal. Orientou, por exemplo, o Al Taawon, da Arábia Saudita, onde acredito ter encontrado uma realidade desportiva bem diferente da de Portugal. Quais foram os principais desafios com que se deparou?
VC: Sim, já tive a oportunidade de trabalhar em vários países, em culturas diferentes, como a cultura árabe e a cultura persa. Já trabalhei no Irão, na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes e também na Hungria. Foram experiências fantásticas, enriquecedoras, até porque as trocas culturais foram fantásticas e o futebol é muito mais do que um 4-4-2 ou um 4-3-3, são também as interligações e as vivências culturais e por isso foram experiências fantásticas. Na Arábia tive a oportunidade de trabalhar em clubes que jogam a Liga dos Campeões, e por isso para além de trabalhar na Arábia, fazer os jogos fora e percorrer os países da Ásia – foi uma experiência fantástica. A cultura deu-nos experiências diferentes, até porque os horários de treino tinham que ser diferentes em alguns países por causa da reza, e também com as características climáticas tínhamos que nos condicionar em alguns aspetos. Tive a oportunidade de estar em alguns clubes que jogavam a Liga dos Campeões, e por isso também defrontar equipas de enorme valia, orientadas por treinadores de excelência, o que também nos ajudou a evoluir enquanto treinadores e enquanto equipa técnica.

MS: O que é que mais privilegia enquanto profissional?
VC: Tento com a minha experiência e com o meu conhecimento ajudar jogadores a evoluírem e a potenciar as suas qualidades, mas também tento ajudá-los a cada dia serem melhores pessoas e melhores seres humanos.

MS: Quais são as “chaves” para o sucesso da sua equipa? O que é que quer alcançar nesta época?
VC: A equipa, o conceito de família, a união e as sinergias que todos os jogadores estabelecem uns com os outros, percebendo que só quando os pensamentos estiverem todos a convergir na mesma ideia e no mesmo sentido é que podemos ser muito fortes. O nosso objetivo para esta época, como é óbvio, passa pela consolidação do Chaves na I Liga, e depois disso é tentar o mais longe possível e fazer o maior número de pontos possível aliando sempre a isso a qualidade de jogo e como disse também anteriormente potenciar jogadores, porque o Chaves é uma equipa que vende jogadores e que precisa de vender jogadores para equilibrar as suas contas. Por isso, os objetivos passam por manter a equipa na I Liga, praticar um bom futebol e potenciar jogadores.

MS: E fora do contexto desportivo… Quem é o Vítor Campelos? O que é que gosta de fazer no tempo que tem livre?
VC: Fora do futebol o Vítor Campelos é alguém muito tranquilo, gosta de estar com os amigos, é um cinéfilo acérrimo, gosta muito de cinema. Posso dizer que mesmo em tempos livres estou sempre atento ao fenómeno desportivo, já que também gosto de outros desportos. Basicamente é isso: família, estar com os amigos, cinema e estar atento a outros desportos.

MS: Para terminar – e não sabendo como é que esta temporada vai acabar… – ter sido um dos responsáveis pelo regresso do Desportivo de Chaves ao principal escalão do futebol português foi, até hoje, um dos feitos de que mais se orgulha? E no futuro, quais são os seus objetivos?
VC: É óbvio que uma subida de divisão é sempre marcante, assim como algumas coisas que já conquistei, como a promoção de alguns jogadores. Já tive a oportunidade de jogar algumas finais ainda enquanto treinador adjunto, mas as verdadeiras conquistas são no dia a dia e a conquista mais importante é a próxima que está para acontecer. É trabalhar dia a dia no máximo para poder atingir os objetivos e os nossos sonhos até porque nós enquanto equipa técnica sonhamos muito alto.

Inês Barbosa/MS

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