Entre o relvado e a televisão: a jornada que contou duas histórias

Enquanto as equipas batalham por pontos, o futebol português continua preso a ilusões de mercado e decisões que afastam adeptos.
No passado fim de semana jogou-se a jornada 12 da Liga Portugal Betclic, ficando assim cumpridos mais de 35% da competição.
Dos resultados verificados não surgiram surpresas de maior, mas ficaram evidentes as dificuldades sentidas por alguns dos candidatos a vencerem os seus jogos. Com exceção do SC Portugal, todas as outras equipas que se situam nos cinco primeiros lugares da tabela classificativa passaram por momentos de aperto.
O líder FC Porto, que recebeu no seu reduto o Estoril, teve de lutar muito para levar de vencida a equipa orientada pelo escocês Ian Cathro, com o tento solitário a ser marcado por William Gomes logo aos 8 minutos. Para quem viu o jogo, ou analisou as estatísticas do jogo, ficou clara a boa organização do Estoril. Sob o comando de Ian Cathro, a equipa tem consolidado o seu modelo, combinando um futebol atrativo com uma ideia de jogo estruturada e princípios bem definidos. É, sem dúvida, uma das agradáveis surpresas desta Liga.
O Benfica, apesar de ter realizado aquele que considero o melhor jogo da era José Mourinho, não conseguiu capitalizar com eficácia toda a avalanche de futebol ofensivo: posse de bola na casa dos 70%, 30 remates e 11 cantos, 2,40 de expected goals. Pelos números, a vitória por 2-1 na deslocação ao terreno do Nacional, com golos tardios de Prestianni e Pavlidis, deveria ter sido mais expressiva e tranquila. Faltou eficácia na finalização das muitas oportunidades criadas.
Num percurso com pouco ruído mediático, o SC Portugal recebeu e venceu o Estrela da Amadora por 4-0, com os golos dos leões a serem marcados por Eduardo Quaresma, bis de Luís Suaréz e Ivan Fresneda. Um triunfo claro e incontestável, numa equipa que vai fazendo o seu caminho sem grande exposição mediática. Estranha-se, até, este silêncio, sobretudo quando Porto e Benfica têm sido alvo de críticas constantes. Entre os três grandes, o Sporting é o único com apenas uma derrota no campeonato e está somente três pontos acima do Benfica. E sabemos bem o impacto que o ruído externo, positivo ou negativo, pode ter na dinâmica de um grupo de trabalho.
Na semana que antecede o dérbi eterno do futebol português, Benfica x Sporting, já se ouve na comunicação social portuguesa comentários que não condizem na íntegra à realidade, mas sim à visão pessoal e preferências clubísticas de cada comentador. Por exemplo, Sofia Oliveira da CNN afirma que o Sporting está mais bem preparado para o dérbi que o Benfica. Ora, o Sporting tem apenas mais 3 pontos que o Benfica; o jogo é disputado no Estádio da Luz, logo o fator casa normalmente tem influência; o Benfica vem do seu melhor jogo na era José Mourinho. Não consigo prever o resultado do derby, mas não vejo as equipas com diferença assim tão substancial que me permita dizer que há um claro favorito para o jogo.
Também Gil Vicente e Famalicão, na minha opinião duas das equipas sensação da prova, passaram por dificuldades. O Gil Vicente perdeu em casa frente ao Tondela e o Famalicão empatou na deslocação a Moreira de Cónegos.
O jogo que encerrou a jornada, o Arouca – SC Braga, trouxe de novo à tona uma temática, mais uma, que deveria envergonhar quem tutela o futebol nacional. Um jogo da divisão principal ter apenas 1447 espetadores é sinal do afastamento das pessoas e espetadores deste nosso futebol. Apesar do Arouca não estar a ter uma época particularmente feliz, o horário do jogo, numa segunda feira, claramente que contribui para esta falta de espetadores nos nossos estádios. Sendo feriado nacional, não seria mais benéfico disputar o encontro à tarde? Qual a razão para, num feriado, o jogo ter sido disputado às 20h15? Uma vez mais, os interesses das transmissões televisivas sobrepõem-se aos dos clubes e do espetáculo. Este é apenas um dos muitos fatores que explicam os estádios vazios. Basta observar as principais ligas europeias e verificar quantos jogos são marcados para horários semelhantes à sexta ou segunda-feira.
Falando em transmissões televisivas, num momento em que as entidades que gerem o futebol português continuam a insistir na centralização dos direitos televisivos como solução para aumentar as receitas, no estrangeiro a tendência parece inverter-se. O exemplo da Liga belga é elucidativo: há alguns meses, a operadora responsável decidiu pagar abaixo do montante contratualizado (84,2M € em vez de 103M €) devido às fracas audiências. Mais recentemente, a DAZN rescindiu o acordo alegando que não está disposta a operar em situação de prejuízo. Isto demonstra que o valor contratualizado não refletia a real valorização do produto.
O mesmo tem nos sido vendido por cá: através de power-points engenhosos, a Liga Portugal tenta nos fazer crer que a centralidade pode atingir um retorno financeiro que não corresponde, de todo, à realidade portuguesa.
Paulo Freitas – Crónica escrita com análises e ponto de vista do seu autor.







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