Desporto

CRÓNICA DESPORTIVA: Centralizar para nivelar por baixo

Credito: DR

Entre vitórias previsíveis dos grandes e reformas estruturais duvidosas, o futebol português arrisca trocar mérito por conforto.

A 14.ª jornada da Liga Portugal Betclic confirmou aquilo que, nesta fase da época, já pouco surpreende: os favoritos continuam a cumprir, mesmo quando jogam longe do seu melhor. FC Porto, Sporting e Benfica venceram, cada um à sua maneira, mantendo a previsibilidade competitiva que tem marcado o campeonato. E talvez seja precisamente essa previsibilidade que tem servido de pretexto para algumas das ideias mais discutíveis que têm surgido nos gabinetes do futebol português.

No Dragão, o FC Porto venceu o Estrela da Amadora por 3-1, num jogo em que voltou a ficar claro que a equipa nem sempre precisa de brilhar para ganhar. Há um traço identitário que regressou ao clube: a competitividade feroz, a entrega total e a recusa em perder. André Villas-Boas e Francesco Farioli parecem ter resgatado o conceito de “jogador à Porto”, aquele que, quando a técnica falha, compensa com suor e raça. Não é futebol romântico, mas é eficaz. E, goste-se ou não, é parte integrante da história de sucesso do clube. Viktor Froholdt é a cara deste “jogador à Porto” neste plantel.

Em Alvalade, o Sporting continua a ser a equipa que melhor joga e mais golos marca. A goleada por 6-0 frente ao AVS é mais um capítulo de uma época em que o ataque verde e branco tem feito a diferença. Luis Suárez e Pedro Gonçalves lideram um coletivo confiante, intenso e eficaz. O Sporting não só ganha, como convence, e isso, num campeonato cada vez mais previsível, deveria ser valorizado.

O Benfica, por seu lado, vive uma fase clara de recuperação. A chegada de José Mourinho trouxe estabilidade, organização e, sobretudo, uma identidade competitiva que parecia perdida. A equipa está mais equilibrada, mais coesa e, sobretudo, emocionalmente mais forte. Depois de um início europeu desastroso, os encarnados estão novamente vivos na Champions League e seguem invictos no campeonato. Não há milagres, mas há trabalho, e isso nota-se.

Também o SC Braga vai subindo na tabela, ainda que sem deslumbrar, provando que a consistência continua a ser uma virtude subestimada no futebol português.

Tudo isto acontece enquanto, fora das quatro linhas, se discute o futuro estrutural do futebol nacional. A centralização dos direitos televisivos voltou à agenda, apresentada como a solução mágica para todos os males do campeonato.

O argumento é conhecido: reduzir desigualdades, aumentar a competitividade e valorizar o produto. O problema é que, por trás do discurso politicamente correto, esconde-se uma realidade bem menos nobre.

A centralização parte de um princípio que considero profundamente errado: a ideia de que se deve retirar a quem mais gera valor para compensar quem menos contribui para o produto. Os chamados três grandes são responsáveis por mais de 75% das audiências, do interesse mediático e das receitas associadas ao futebol português. São eles que vendem o campeonato dentro e fora do país. Penalizá-los financeiramente em nome de uma igualdade artificial não é justiça distributiva, é empobrecimento coletivo.

O argumento de que a centralização tornará o campeonato mais competitivo é sedutor, mas pouco sustentado pela realidade. Basta olhar para outros contextos: mais dinheiro não significa automaticamente melhor gestão, melhores jogadores ou melhores resultados. Significa, muitas vezes, apenas mais margem para errar. O verdadeiro problema do futebol português não é a falta de receitas, mas a falta de estruturas, planeamento e profissionalismo em muitos clubes.

Há exemplos que desmontam o discurso da inevitabilidade. O SC Braga construiu o seu estatuto com visão estratégica, valorização de ativos e presença regular na Europa. O Gil Vicente estabilizou-se na Primeira Liga com critério e organização. O Vitória SC e o Santa Clara, com orçamentos limitados, têm apresentado projetos desportivos sérios e competitivos. Nenhum deles precisou de subsídios encapotados para crescer. Precisaram, isso sim, de competência.

Ainda mais preocupante é a proposta de dividir o campeonato em duas fases, criando um grupo do título e outro da manutenção. Trata-se de uma ideia perigosa, que cristaliza desigualdades em vez de as combater. Ao separar clubes a meio da época, a Liga estaria a assumir, de forma explícita, que metade do campeonato é irrelevante. Menos jogos competitivos, menos interesse, menos exposição mediática e, inevitavelmente, menos receitas. É um formato pensado para proteger os de cima e anestesiar os de baixo: tudo menos uma competição justa.

Usar a centralização como justificação para este modelo é ainda mais grave. Em vez de reformar o produto, está-se a maquilhar um problema estrutural com soluções de curto prazo, desenhadas para agradar a operadores televisivos e não para servir clubes ou adeptos.

Sou crítico da centralização não por defender privilégios, mas por defender mérito. O futebol profissional deve premiar quem trabalha melhor, quem investe melhor e quem compete melhor. Todos os clubes das duas principais divisões são obrigados a ser profissionais. Isso implica responsabilidade, planeamento e visão estratégica. Implica procurar mercados alternativos, apostar na formação, recrutar com critério e valorizar ativos. Não implica esperar que alguém redistribua receitas porque o sistema “é injusto”.

Equidade não é igualdade. Tratar de forma igual realidades profundamente diferentes é uma receita segura para nivelar por baixo. O futebol português precisa de competitividade, sim, mas precisa sobretudo de competência. Sem ela, nenhuma centralização salvará um produto que insiste em premiar a mediocridade em vez de exigir excelência.

No fim, a pergunta é simples: queremos um campeonato mais forte ou apenas um campeonato mais confortável para quem não quer mudar? A resposta, como quase sempre no futebol português, dirá muito sobre o nosso futuro e pouco sobre a coragem de o enfrentar.

Paulo Freitas – Crónica escrita com análises e ponto de vista do seu autor.

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