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Vladimir Putin! O Czar do séc. XX

milenio stadium - image UKR Russia-Putin

 

Ao iniciar esta minha crónica semanal e após vários dias a visionar os vários canais televisivos ocidentais, tenho de admitir que o faço condicionado por vários sentimentos que acabarão por estar presentes em tudo o que vos quero dizer.

Um primeiro sentimento que me afeta profundamente é a comoção!

Comoção que me faz brilhar os olhos de lágrimas perante o sofrimento dos muitos milhares de homens, mulheres e crianças, fugindo de uma guerra que lhes foi imposta, causando um enorme sofrimento humano às populações e a angústia na voz dos muitos milhares de emigrantes ucranianos que se manifestam contra a guerra pelo mundo inteiro, temendo pela vida dos seus familiares residentes na Ucrânia e pelo futuro do seu país. Comoção provocada por verificar a enorme solidariedade demonstrada pelo nosso povo e povos de todo o mundo para com a Ucrânia, nomeadamente pela coragem dos manifestantes contra a guerra, levadas a cabo por milhares de russos na própria Rússia, rapidamente contrariados pelo polícia russa.

A minha tristeza é enorme e dá lugar à revolta!

Revolta contra um monstro ditador autocrata, rodeado por uma claque de oligarcas russos e chefes militares ansiosos das glórias da velha Rússia, que invadiu e pretende anexar um país independente, desafiando todas as normas do direito internacional. Revolta por verificar a disparidade de meios humanos e materiais entre o poderoso exército russo invasor e o inferior exército ucraniano, que sozinho tenta refrear o apetite do “urso” russo, mobilizando toda a população que, com enorme patriotismo, tenta resistir ao invasor, num combate entre David e Golias. Revolta por constatar que, após tantas declarações inflamadas dos dirigentes ocidentais contra a atitude de Putin, com multiplicadas promessas de enormes sanções contra a Rússia, elas tardaram em ser aplicadas e foram concretizadas a conta-gotas, sendo que o essencial (o apoio em material bélico) só foi decidido quando a capital do país se encontrava sitiada pelas forças russas.
Eu, que vivi a queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética, depois de ter nascido e crescido à sombra de duas superpotências que competiam entre si e acabaram respeitando-se pelo poder das armas de cada um, senti nessa altura um certo amargo de boca por ignorar que regras iriam regular a vida futura entre os povos deste martirizado planeta. No entanto e apesar dos tropeções de velhas e novas disputas regionais, comecei a convencer-me que, no geral e nomeadamente na Europa, uma Nova Ordem Internacional começava a instalar-se e a permitir aos povos globalizarem as suas relações comerciais e a investirem no bem-estar dos seus povos, erradicando a guerra dos seus propósitos.

Quando há duas semanas escrevi o meu habitual apontamento sobre o diferendo que opõe a Rússia à Ucrânia, considerando os motivos inicialmente evocados, o contexto geopolítico das duas nações e a sua inserção na limitação das relações internacionais existentes, deixei em aberto possíveis desfechos para um conflito que durava há uns anos e que tinha como dados adquiridos a anexação da Crimeia pela Rússia e a criação por esta de duas servis autoproclamadas repúblicas na região de Donbass, enquanto um seu cordão de segurança face à sua vizinha Ucrânia. E considerava isso porque, face aos factos e à impotência da Ucrânia em desafiar a Rússia, a perda daqueles territórios por parte da Ucrânia e o assumir da neutralidade ucraniana face à NATO era inevitável.
No entanto e ao ouvir o discurso de Vladimir Putin, que antecedeu a invasão de todo o território ucraniano, fiquei perplexo com a narrativa histórica que apresentou como justificação da sua atitude e, mais do que isso, a pretensão imperial deste “aprendiz de Czar”, que quer restaurar o império da “mãe russa”, tentando personificar a crueldade dos Romanov do século 19, em pleno século 21. O que está em causa para este ex-KGB de triste memória e atual ditador russo, não é somente a Ucrânia, que quer tentar apagar do mapa como nação, mas sim alargar a Rússia até aos territórios que detinha enquanto império dos tempos modernos e que dava pelo nome de União Soviética, nome ao qual não quer ser associado. Talvez porque foram os bolcheviques que ocasionaram o fim brutal do último Czar Nicolau II.

Há quem considere este ditador um “louco”, como outros “loucos” que, de vez em quando, nos aparecem na história moderna dos povos, especialmente quando evoca a possibilidade de utilizar armas nucleares para obter o que deseja, alimentando um secreto desejo de parte da sua população e de chefes militares em voltar à Rússia poderosa de outros tempos.

Não o vejo como doente mental, embora não exclua qualquer transtorno psicológico, mas um homem perigoso, que aspira a ser idolatrado, que governa o seu país a “pulso de ferro” e que tem objetivos claros e já denunciados há bastante tempo, não apenas pelas suas palavras, mas igualmente pela forma como conduz a sua política interna e externa, mentindo sem preconceitos à sua população e aos países a quem promete amizade e cooperação.

Mas este ardiloso estratega não contava com outros fatores que poderão obrigá-lo a repensar este seu objetivo imediato, em síntese: o isolamento internacional da Rússia e as consequências financeiras imediatas; a contestação interna das populações mais jovens; a eventual deserção na sua claque de oligarcas a braços com as perdas e, sobretudo, a liderança, a bravura e o patriotismo dos ucranianos, a contrastar com a falta de motivação de muitos soldados russos.

Na hora a que vos escrevo terminou uma reunião entre dirigentes ucranianos e russos que ainda nada concluiu e que, tendo em consideração a permanente intolerância de Putin, só pode ter acontecido por pressão de algum dos seus novos amigos, como por exemplo a China.

Este pequeno texto não me permite continuar com considerações, sobretudo quando existem enormes incógnitas quanto ao futuro imediato deste conflito. Resta-me salientar a minha enorme admiração pelo povo ucraniano e desejar-lhes o maior sucesso para defender a sua pátria.

Luís Barreira/MS

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