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Tradições Pascais no Minho: Aleluia, Aleluia…

augusto bandeira pascal - milenio stadium

 

Não se podia sequer assobiar ou dizer palavrões.

Era na Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa, que se fazia um jejum, abstinência e tristeza. Eram tradições que hoje se vêm a perder a pouco e pouco. A maioria das mulheres vestia-se de negro e os homens, que durante a faina agrícola passavam o dia assobiar, durante a Quaresma não o podiam fazer. Nem palavrões eram permitidos, nem se podia contar anedotas. Era assim durante a Quaresma, entre outras coisas: as igrejas e capelas não tinham flores nos altares, os santos eram ocultados com tecidos roxos ou pretos, como também não se podia tocar o sino para chamar os fiéis – em muitas terras usavam umas matracas a convocar os fiéis para as liturgias. Carne? Nem o cheiro… era um jejum muito rigoroso e todos respeitavam. Havia um respeito para mostrar que a coisa era séria – punha-se uma pedra pesada em cima da salgadeira, para se ter a certeza que se mantinha fechada até ao fim do período pascal, pois era absolutamente proibido comer carnes e gorduras. Na Sexta-feira Santa não se podia fiar, coser, lavar ou estender roupa ou até cozer pão – isto é uma tradição muito antiga da cultura popular minhota, muitas vezes ouvi tudo isto em viagens com o historiador Dr. Francisco Sampaio, que Deus já chamou. Muitas palestras presenciei por várias regiões do país e que adorado ele era pela forma como dava a conhecer as tradições. Tradições muito fortes até à década de 50. Algumas, a pouco e pouco, foram desaparecendo. Havia as visitas das Alminhas espalhadas pelas freguesias, tantas como estas e outras no que se designava, noutros tempos, em todo Alto Minho na época de Quaresma, na preparação para a Páscoa, mas as tradições no Minho em muitas zonas continuam, não tão rigorosas, e outras foram aparecendo com o que se fazia, e para muitos um sofrimento. Depois de tantos dias sem comer carne, numa freguesia de Viana do Castelo um grupo de homens juntou-se para desfrutar de carne, assim começou o famoso Bife da Páscoa em terras vianenses, que hoje junta mais de 1000 pessoas a ver quem consegue comer mais bifes. Por estas terras, a Páscoa já não tem valor nenhum, os jovens não aceitam ouvir para assim poderem aprender, julgam que estar rodeados de pessoas com saber os prejudica e assim vai-se acabando com muitas coisas.

Mas a Páscoa no Minho ainda continua com algumas tradições, a mesma ou quase a mesma tradição – terminada a Quaresma tudo regressa ao normal. Fica tudo preparado para a visita pascal, o compasso pascal que é encabeçado pelo sacerdote, em algumas zonas paramentado como antigamente – com chapéu de três bicos, sotaina, sobrepeliz e estola- e sempre acompanhado pelo mordomo da cruz, os moços da caldeira, da campainha e os que recebem as esmolas, os homens de opas que recolhem o folar do abade e as pessoas da paróquia que acompanham vestidas a rigor e com concertinas e bombos. Assim se faz, em muitas terras no Minho, a visita pelas casas a dar a cruz a beijar e ao mesmo tempo as casas ficam benzidas. As portas são abertas ao público e onde há flores em direção da entrada define-se como um convite para entrar. Ainda hoje as casas que abrem a porta à cruz são preparadas de antemão, a limpeza é feita, de forma geral, para retirar manchas das paredes – que no passado era aliviar o sarranho -, fazia-se e ainda se faz belos arranjos (tapetes) de flores à entrada, no passado para retirar os cheiros infiltrados colocavam ervas com cheiro espalhadas na cozinha ou sala onde a cruz se dava a beijar (eram ervas cheirosas, tipo funcho, alecrins e alfádega, que é uma planta aromática que vem da família do manjerico, tem um cheiro forte), coisas que os nossos antepassados faziam. Eram muito inteligentes, sabiam usar o que havia.

As tradições gastronómicas continuam: o cabritinho assado no forno – atenção, cabritinho e não borrego como uma grande percentagem serve -, o famoso pão de ló, os doces da romaria, os beijinhos, os confeitos e as amêndoas, o arroz-doce entre tantos outros doces.

Continuem com as tradições da Páscoa, procurem aprender e perceber a razão por que se faziam todas as coisas, façam para manter e não para se promover, como muitos fazem.
Aleluia, Aleluia… feliz e santa Páscoa a todos os leitores.
Bom fim de semana.

Augusto Bandeira/MS

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