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“Lutar por um mundo livre de discriminação e preconceito” é a missão da Refugees Welcome. Esta é parte de uma organização internacional, com presença em 14 países, entre eles o Canadá, que pretende apoiar migrantes e refugiados. Surge em Portugal em 2016 e desde então tem ajudado estas pessoas a integrarem-se na sociedade, auxiliando no combate a possíveis obstáculos que possam aparecer no caminho.

Numa altura em que vivemos um conflito armado – e desigual – entre a Rússia e a Ucrânia, quisemos saber, através de Teresa Silva, co-fundadora da Refugees Welcome Portugal, mais sobre a situação destas pessoas que não têm outra escolha que não seja fugir do seu país.

Para além de ações de consciencialização e sensibilização para o tema, a Refugees Welcome presta apoio social e de habitação, promove a formação e o ensino da língua portuguesa, auxilia no processo de procura de emprego e ainda possui uma plataforma de mentores voluntários, que se disponibilizam, dentro das suas áreas profissionais, a ajudar migrantes e refugiados.

Tudo com o objetivo de tornarem o mundo em que vivemos num lugar melhor: porque, afinal, todos nós queremos (e merecemos) ter um pedacinho de terra a que possamos chamar casa.

Milénio Stadium: O mundo tem assistido à guerra que ocorre em território ucraniano e sofrido pelo seu povo, dando as mãos para ajudar tanto quanto possível. Ainda que seja uma atitude louvável, infelizmente nem sempre assim o foi… Porquê? Porque é que, desta vez, os países parecem estar a reagir mais e melhor?
Teresa Costa: Os países e a população europeia mobilizaram-se desde o primeiro minuto. A invasão da Ucrânia foi um evento impactante e que nos deixou muito alerta e conscientes para as consequências de uma guerra. As imagens enchem as nossas televisões e os nossos telemóveis todos os dias: bombardeamentos, feridos, pais que perdem os seus filhos, mulheres e crianças que fazem fila por uma oportunidade de fuga em direção à paz. E os homens que ficam para combater. Os momentos da despedida. Tudo no nosso ecrã, quase em tempo real. A possibilidade de se tornar numa terceira guerra mundial obriga-nos a pensar ‘e se fosse eu?’.
A cobertura que está a ser dada a este conflito – e bem – é algo nunca visto, e por isso mesmo também as pessoas se mobilizam como nunca antes tínhamos visto. Carros, autocarros e carrinhas dirigem-se para a fronteira para levar bens e transportar a população ucraniana em direção aos países de acolhimento. E os países preparam-se como nunca havia acontecido: os documentos são emitidos rapidamente, há casas disponíveis para abrigar quem chega, milhares de ofertas de emprego foram publicadas especificamente para refugiados ucranianos. Considerando a forma repentina como tudo ocorreu diria que o processo de acolhimento está a ser muito positivo: em grande parte por causa da solidariedade da população e das organizações não governamentais, da desburocratização de procedimentos, e também porque muitas das pessoas que estão a chegar a Portugal – o país mais longínquo da UE – já têm aqui alguma base familiar.

MS: No caso da Europa, o facto de sermos diretamente atingidos (principalmente economicamente) por esta guerra poderá estar na base deste comportamento mais empático? Por outro lado, como se explicam os episódios de racismo perante indivíduos de raça negra que foram impedidos de atravessar a fronteira com a Polónia, por exemplo?
TC: A guerra na Ucrânia, embora seja em tudo semelhante a outros conflitos e guerras, passa-se em solo europeu, e isso traz muitas implicações quando pensamos nos refugiados. Em primeiro lugar, a chegada de refugiados foi quase imediata. Quando os refugiados fogem de conflitos no Médio Oriente ou em África o caminho é longo e a chegada à União Europeia, onde podem pedir asilo, é demorada. Este facto obrigou a Europa, a UE, a mobilizar soluções rapidamente. Todos os países europeus receberam ucranianos e imediatamente trataram do seu acolhimento e integração. Em tempo recorde milhares de refugiados receberam proteção, um lar, e direitos. Esta é a prova de que os países europeus podem e conseguem acolher os refugiados: a Polónia, que em 2015 se recusou a receber refugiados sírios, tem agora dentro das suas fronteiras 1 milhão e 200 mil refugiados ucranianos. Se assim é, porque é que se recusou a acolher pouco mais de um milhar de sírios que fugiam exatamente pelas mesmas razões? É inevitável falarmos de racismo e xenofobia. E acontecimentos como os dos últimos dias tornam impossível negarmos os valores distorcidos de alguns países: refugiados não-brancos impedidos de entrar na Polónia, grupos nacionalistas polacos que espancam refugiados negros e indianos… as notícias são várias.
Em 2019 a Refugees Welcome Portugal esteve a trabalhar na Sérvia, numa cidade que fazia fronteira com a Hungria. Apoiávamos os refugiados que ali viviam, e diariamente tentavam atravessar a fronteira em direção à Hungria. Eram refugiados afegãos, maioritariamente. Todas as noites tentavam a travessia – da mesma forma que agora os ucranianos tentam: a pé, de comboio, às vezes de carro. As autoridades húngaras apanhavam estes refugiados e expulsavam-nos, embora fosse o seu direito pedir asilo e proteção. Como é agora o direito dos milhões de ucranianos que fogem. Agora vemos notícias de cidades – abertamente contra migrantes e refugiados – que abrem os seus braços aos refugiados ucranianos.
Os exemplos certamente se multiplicam, mas estes são suficientes para transmitir a mensagem.

MS: Quais são os principais desafios que organizações como a Refugees Welcome encontram em situações como esta?
TC: Os maiores desafios surgem precisamente quando este alvoroço mediático desaparece. Há quem diga que a guerra na Ucrânia pode vir a durar anos – pese embora a esperança de que isso não venha a acontecer, é esta a realidade de muitos conflitos mundo fora. Basta olharmos para a Síria, em guerra há mais de 10 anos. Quando o tempo passa, as pessoas desligam-se das necessidades dos refugiados, esquecem que eles existem. Mas eles continuam a chegar ao longo dos anos: a população não foge simultaneamente, muitos aguardam no país na esperança de que as coisas melhorem, outros não têm dinheiro para partir… enfim, os motivos são muitos. E é nestes momentos que surgem mais necessidades, em que se torna difícil encontrar uma habitação para as novas famílias que chegam, um trabalho, ensinar a língua, e acima de tudo integrar as pessoas: porque a integração depende da população de acolhimento também, e se essa população não está alerta e motivada para fazer parte do processo de integração, os refugiados acabam por viver num contexto de exclusão.
Portanto a mensagem a transmitir é pedir às pessoas para que não se esqueçam desta causa, agora e no futuro. Para os refugiados ucranianos, e não só.

MS: De que forma é que cada um de nós pode ajudar estes e outros refugiados?
TC: Há muitas formas de ajudar! Em primeiro lugar, estarmos informados e continuarmos alerta para os acontecimentos no mundo: não só este que está mais perto de nós, mas tantas outras guerras, conflitos e países onde os direitos humanos são diariamente ignorados: Palestina, Eritreia, Afeganistão, Iémen, Mianmar, Venezuela, Síria.
Em segundo lugar, doar! Há muitas organizações nas fronteiras, e também em Portugal com campanhas ativas. A Refugees Welcome Portugal está a aceitar donativos para colmatar as necessidades de acolhimento em Portugal, e temos também um crowdfunding de apoio ao Afeganistão. (https://gofund.me/bfb9a9ab)
Outra forma de ajudar é oferecendo abrigo a quem precisa: um quarto que esteja livre em casa ou um apartamento onde possam acolher, temporariamente, pessoas refugiadas – é uma grande ajuda uma vez que a habitação é uma das principais lacunas quando os refugiados chegam ao país, já que os centros de acolhimento estão habitualmente sobrelotados. Se tiverem um espaço podem inscrever-se neste link: https://refugees-welcome.pt/plataformahabitacao/.
Inês Barbosa/MS

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