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“Ponte de Londres”, o protocolo para lidar com a morte da rainha

QueenElizabeth - milenio stadium

 

Rainha no Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, Isabel II faleceu nesta quinta-feira (8). Adolescente durante a Segunda Grande Guerra, ascendeu ao trono após a morte do pai, o rei Jorge VI, e foi coroada no ano seguinte, 1953. Esteve 70 anos no poder.

“A Rainha morreu pacificamente em Balmoral esta tarde. O Rei e a Rainha Consorte vão permanecer em Balmoral esta noite e vão regressar a Londres amanhã”, pode ler-se numa curta mensagem divulgada nas redes sociais da família real.

Na década de 1960, viu pulverizar-se o império britânico. Na década seguinte, testemunhou a entrada do Reino Unido no espaço que é hoje a União Europeia. Depois, na crise económica que caracterizou os anos 80, cavando um fosso entre a Direita e a Esquerda, Isabel II personificou um raro polo de união e estabilidade dos britânicos na turbulência do reino. Reinou durante 70 anos, cumprindo o mais longo reinado da Europa.

Isabel Alexandra Maria nasceu em Londres, em 21 de abril de 1926. Era a quadragésima monarca depois do rei Guilherme I (Guilherme, o Conquistador) e trineta da rainha Vitória. Era casada com o príncipe Filipe, duque de Edimburgo. Foi mãe de quatro filhos.

Começou a ter participação na vida pública com a idade de 14 anos. Estudou História Constitucional e Direito, Arte e Música, recebeu formação religiosa do Arcebispo de Cantuária, e foi uma excelente amazona desde a infância. Pouco depois de ter completado 18 anos, foi nomeada Conselheira de Estado, exercendo, pela primeira vez, algumas funções da Coroa. Durante a guerra trabalhou no Serviço Territorial Auxiliar e fez a sua primeira visita oficial ao estrangeiro, com 21 anos, numa deslocação à África do Sul.

Em 2 de junho de 1953, foi coroada rainha na Abadia de Westminster, onde acorreram chefes de Estado e representantes das casas reais europeias. Fez história a transmissão pela televisão da cerimónia e dos festejos da coroação.

Isabel II foi a primeira soberana reinante a ser mãe desde o tempo da rainha Vitória. E desde o início do seu reinado, recebeu, em audiências semanais, 16 primeiros-ministros britânicos, de Winston Churchill a Liz Truss, e tratou questões de Estado com 12 presidentes dos Estados Unidos da América.

Apesar do diminuído papel político (praticamente simbólico) a que se viu reduzida a monarquia britânica após a Segunda Guerra Mundial, Isabel II procurou preservar o caráter unificador da Coroa no espaço político do antigo império.

“Independentemente da irracionalidade que possa existir no desejo de as pessoas concentrarem num rei ou numa rainha o seu amor e dedicação pelo país, a bem cultivada rotina de Isabel II faz sentido”, escrevia “Jef McAllister, então editor da delegação de Londres da revista “Time”, por ocasião da celebração do 80.º aniversário da soberana britânica, em 2006. Referia o jornalista que se tratava de “um tempo reparador num reinado de 54 anos. A forragem para os tabloides – que foram Carlos e Diana, André e Fergie, ou a morte da rainha-mãe com 101 anos -, tudo isso passou. Carlos casou-se com Camilla, facto que, segundo os cortesãos, devolveu a Isabel II e ao Duque de Edimburgo a garantia da sua tranquilidade”.

Ou, como afirmava também Robert Lacey, um dos biógrafos de Isabel II, a longa saga dos Windsor voltara a ter eco na opinião pública: “A rainha tornou-se matriarca no outono da vida, liderando uma família novamente feliz e mais credível, apesar dos traumas que sofreu”. Respeitada e popular entre os seus súbditos, Isabel II soube enfrentar as adversidades e teve sobretudo engenho para encontrar formas de percorrer novos caminhos de aproximação ao povo.

A “rainha da Inglaterra”, como era vulgarmente designada, sabia transmitir, enquanto monarca, essa intangível e efémera sedução do esplendor real britânico, que explode em momentos especiais, sobretudo aqueles que são programados e personificados por quem percebia realmente do ofício, como acontecia com ela.

O dia da morte da rainha Isabel II levou à concretização de uma série de planos cuidadosamente elaborados que estão em vigor desde a década de 1960, num processo denominado “Operação Ponte de Londres”.
O esboço vago destes planos já é conhecido há algum tempo mas, o “Politico” divulgou, em 2021, como o protocolo funcionou e funcionará nas horas e dias após a morte da monarca, que faleceu esta quinta-feira (8), aos 96 anos.

O plano de segurança é descrito na íntegra, detalhando todo o processo, desde a forma como a notícia da morte foi divulgada até à rapidez com que o Príncipe Carlos ascenderá ao trono. Além disso, inclui detalhes sobre o que acontecerá durante os 10 dias após a morte da rainha, incluindo o local onde o caixão estará, a forma como o primeiro-ministro irá abordar publicamente a notícia e como o Príncipe Carlos passará os seus primeiros dias como Rei da Inglaterra.

“D-Day”: o dia da morte de Isabel II

O dia em que a rainha Isabel II morreu é referido como “D-Day” e os dias seguintes “D+1”, “D+2” e por aí em diante. Nesse dia, deu-se uma “cascata de chamadas” horas após a morte para informar o primeiro-ministro, o secretário de ministério e vários ministros e funcionários do governo. O primeiro-ministro foi informado pelo secretário particular da rainha, assim como o Gabinete do Conselho Privado.

A informação foi divulgada entre os ministros do Governo com uma mensagem pré-programada: “Acabamos de ser informados da morte de Sua Majestade, a Rainha”. Os ministros também foram informados de que “discrição é necessária”. Os funcionários públicos foram informados com um e-mail: “Caros colegas, é com tristeza que escrevo para informá-los da morte de Sua Majestade, a Rainha”.

Já o público foi informado através de uma “notificação oficial” entregue pela Casa Real. Os pilotos também informaram os passageiros dos seus voos nos casos em que a notícia foi anunciada quando estavam a meio de uma viagem.

Para marcar o dia, houve um minuto de silêncio nacional e foram disparadas salvas de canhão. No final do dia, houve também uma cerimónia fúnebre “espontânea” realizada na Catedral de São Paulo, em Londres, com a presença do primeiro-ministro.

Os dias seguintes

Como a rainha morreu em Balmoral, na Escócia, o corpo será levado para Londres no comboio real, como parte de uma operação conhecida como “Unicórnio”. No caso de isso não ser possível, o corpo será levado de avião.
No Dia D+4, haverá um ensaio para a procissão do caixão do Palácio de Buckingham ao Palácio de Westminster. A procissão acontecerá no Dia D+5 e será seguida por uma cerimónia fúnebre no Westminster Hall. A rainha ficará durante três dias no Palácio de Westminster, numa operação conhecida como “Operação Pena”.
O funeral deverá acontecer 10 dias após a morte da rainha na Abadia de Westminster. Nesse dia, haverá um silêncio nacional de dois minutos ao meio-dia. Haverá procissões tanto em Londres como em Windsor e uma cerimónia fúnebre na Capela de São Jorge. O dia do funeral será dia de luto nacional e também feriado.
A rainha será enterrada na Capela Memorial do Rei George VI, em Windsor.

Os planos para o Príncipe Carlos

No dia de hoje (9), conhecido como Dia D+1, o Conselho de Adesão vai reunir-se no Palácio de St. James para proclamar o Príncipe Carlos como novo soberano. Centenas de pessoas estarão presentes, incluindo o primeiro-ministro e ministros do Governo. Às 15.30 horas, conforme consta dos documentos, haverá uma audiência com o Rei Carlos.

No Dia D+3, Carlos receberá a moção de condolências no Westminster Hall e vai iniciar uma digressão pelo Reino Unido, passando pela Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales.

Redes sociais “vestidas” de negro

Em relação às redes sociais, todas as páginas departamentais do Governo têm agora uma faixa preta e também mudaram as suas fotos de perfil para o brasão departamental. Qualquer conteúdo considerado não urgente não será publicado.

Além disso, os retweets estão bloqueados, a menos que sejam aprovados pelo chefe de comunicações do Governo central.

O site da família real foi atualizado com uma página preta com uma curta declaração a confirmar a morte da monarca. Da mesma forma, o site do Governo tem uma faixa preta na parte superior.

JN/MS

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