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Médicos Sem Fronteiras: O desespero da falta de apoio

milenio stadium - medico sem fronteira

 

Ajuda médica onde ela é mais necessária. Independente. Neutra. Imparcial. Estes são, aliás, os princípios ou ideais dos Médicos Sem Fronteiras, que têm espalhado o seu trabalho em todo o mundo. O impacto desta organização de apoio social à escala global foi reconhecido em 1999 quando os Médicos Sem Fronteiras foram galardoados com o Prémio Nobel da Paz.

Esta organização mundial fornece algo absolutamente vital – cuidados médicos gratuitos a pessoas que deles necessitam. Não importa de que país são, a que religião pertencem, ou quais são as suas filiações políticas. O que importa é que são seres humanos necessitados. Os Médicos sem Fronteiras vão onde as necessidades médicas das pessoas são maiores.

Suportados essencialmente por doações privadas, os Médicos sem Fronteiras reivindicam a sua independência para fazer o que e onde acham que a sua presença é necessária. E apesar das suas ações serem, em primeiro lugar e acima de tudo, médicas, quando a assistência médica por si só não é suficiente, eles tentam providenciar abrigo, água e saneamento, comida ou outros serviços.

As ligações humanas estão no centro de todo o trabalho e milhões de pessoas são ajudadas por outras que se entregam a este serviço humanitário, todos os anos.

Além de tudo mais, com o conhecimento adquirido com o trabalho no local, os Médicos sem Fronteiras assumem também o compromisso de estimular o debate sobre as diversas crises que enfrentam no mundo, com testemunhos que, sendo relatados na primeira pessoa, têm mais força e amplitude. Recentemente, têm sido muitas as páginas de jornais que têm refletido as preocupações destes profissionais relativamente a dois dos problemas centrais no momento atual, ajudando-nos a entender não só a gravidade do que se passa no mundo, mas também as causas e possíveis/terríveis consequências. Por um lado, alertando para a grave situação no Sudão do Sul, onde os cortes de financiamento (no valor de milhões de dólares) ao sistema nacional de saúde sudanês por parte de estados como o Reino Unido e outros doadores, através do Fundo Comum para a Saúde – um financiamento que permitia o acesso aos cuidados de saúde primários básicos e alguns cuidados secundários, e inclui pagamentos para os trabalhadores locais da saúde, medicamentos e material médico, bem como assistência técnica.

Sendo a maior organização médico-humanitária a trabalhar no Sudão do Sul, a Médicos Sem Fronteiras está alarmada com a escala e o calendário dos cortes no sistema nacional de saúde pública e adverte contra o previsível impacto prejudicial no acesso das pessoas aos cuidados de saúde, especialmente para os mais vulneráveis. “Após anos de conflitos prolongados e crises humanitárias recorrentes, o sistema de saúde do Sudão do Sul já se encontrava em situação de apoio à vida, e estes cortes irão paralisar ainda mais um sistema de saúde pública cronicamente subfinanciado que luta para satisfazer as necessidades da população”, diz Federica Franco, diretora nacional dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Sudão do Sul.

Aproximadamente dois terços das 2.300 unidades sanitárias do Sudão do Sul já não funcionam e menos de metade (44%) da população total vive num raio de cinco quilómetros de uma unidade sanitária funcional. Com as inundações, deslocações, insegurança alimentar e violência a permanecerem questões significativas no país, estes cortes de financiamento surgem no pior momento possível.

“Estes não são apenas números abstractos – estes cortes terão implicações de vida ou morte para as mulheres, homens e crianças no Sul do Sudão”, disse Franco.

Em Bentiu, onde residem atualmente mais de 170.000 pessoas deslocadas no interior do país, há surtos de doenças, má nutrição e outros problemas de saúde. Apesar da vulnerabilidade da comunidade, o Hospital Estatal de Bentiu é uma das instalações de saúde para a qual o Fundo Comum para a Saúde irá suspender o financiamento em julho.

Devido ao seu financiamento privado, a MSF continuará a fornecer assistência humanitária e médica através dos seus programas em todo o Sudão do Sul. A organização dos Médicos Sem Fronteiras já recebeu pedidos de assistência de emergência de várias unidades de saúde do Sudão do Sul e comunidades afetadas, devido aos cortes. No entanto, a MSF garante já estar sobrecarregada e a lutar para satisfazer as necessidades de saúde da população no meio de emergências simultâneas, e tem pouca capacidade de escala para satisfazer a grande lacuna deixada pelos cortes de financiamento do Fundo Comum para a Saúde.

Mas há um outro alarme que tem soado bem alto: No último dia 16 de junho, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou para o risco de uma “emergência nutricional de proporções enormes” na região etíope de Afar, onde as admissões hospitalares por desnutrição quadruplicaram nos últimos meses. “No hospital Dupti, o único centro médico de referência que ainda está em funcionamento em toda a região de Afar, estamos a ver como as crianças chegam depois de terem feito viagens muito longas e extremamente difíceis”, alertou o coordenador de emergência dos MSF no país, Raphael Veicht.

Segundo a MSF, pelo menos 35 crianças com sintomas de desnutrição morreram nas últimas oito semanas neste hospital, mais de dois terços das quais “menos de 48 horas após o internamento”, devido ao estado “tão avançado” de debilidade em que chegaram à unidade de saúde.

Segundo Raphael Veicht, o recente conflito na região, o reduzido acesso a cuidados médicos, a falta de água e de alimentos e a insuficiente ajuda humanitária são alguns dos fatores que estão a contribuir para a “grave situação em Afar”.

A região do Corno de África também sofre uma seca devastadora — a pior em quatro décadas — que já levou mais de 23 milhões de pessoas a enfrentarem “fome extrema” na Etiópia, Somália e Quénia, segundo um relatório publicado em maio pelas organizações Save the Children e Oxfam.

A MSF estima que apenas 20% das instalações médicas de Afar ainda estejam em funcionamento, depois de muitas terem sido saqueadas, abandonadas ou terem ficado sem recursos suficientes para assistência à população.

O hospital Dupti, que é apoiado pela organização, serve uma população total de 1,1 milhões de pessoas, incluindo centenas de milhares de deslocados.

Situações desesperantes e sem um fim à vista – pelo menos enquanto os países mais ricos do mundo não conseguirem olhar para além das suas fronteiras.

Catarina Balça/MS

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