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Made in China

De oficina do mundo à superpotência global

Made in China - mileniostadium
Créditos: DR

 

A China é a segunda maior economia do mundo, com um poder de produção, consumo e mão de obra gigantescos…e um poder de resiliência que se mostrou estrategicamente fundamental durante o auge da pandemia de Covid-19. Enquanto as outras superpotências ao redor do globo amargavam prejuízos e afundavam, o país asiático conseguiu o feito de se manter à tona da água, e com isso encurtou em alguns anos a busca pela primeira posição como principal economia mundial. As previsões são de que ainda em 2027 isso possa acontecer.

Gordon Houlden - mileniostadium
Gordon Houlden, Diretor Emérito do Instituto Chinês da Universidade de Alberta. Créditos: DR

Esses feitos, no entanto, são vistos sob olhares críticos de muitas outras nações, que condenam as maneiras de negociação e exigências feitas por Pequim sob a liderança de Xi Jinping, que é acusado de usar a influência que suas parcerias econômicas geram para promover seus interesses políticos, às vezes usando boicotes e outras táticas coercitivas para intimidar os governos que porventura cruzem seu caminho.

Quem do lugar mais alto observa atentamente essa aproximação da China e claro, usa suas táticas para tentar frear essa disputa, é os Estados Unidos que durante décadas foi o protagonista da economia mundial e agora se vê ameaçado de perder o posto. Mas as políticas econômicas adotadas por essa superpotência asiática afetam todo o mundo, dada a dependência global de produtos produzidos por lá e segundo especialistas o poder econômico da China terá implicações geopolíticas que afetarão o mundo todo. 

Para nos ajudar a entender um pouco mais sobre a importância desse player no cenário econômico mundial e porque o resto do mundo assiste atento às suas jogadas, estivemos à conversa com Gordon Houlden, Diretor Emérito do Instituto Chinês da Universidade de Alberta, focada no estudo da China contemporânea, incluindo pesquisas de ponta e relevantes de temas como a política chinesa, a economia, as questões sociais, culturais e claro, as relações entre Canadá-China. Abordamos com ele alguns pontos específicos sobre a importância da economia chinesa no cenário mundial, o que a torna tão fundamental e poderosa no aspecto econômico, e claro, como isso se refletirá também em outras áreas e relações comerciais com o resto do mundo.

 

Rumo à liderança econômica mundial

Um recente estudo do banco multinacional JP Morgan prevê que a China deve superar os Estados Unidos como maior economia do mundo ainda em 2027. A estimativa é que o PIB (produto interno bruto) chinês salte de cerca de US$ 15 trilhões em 2020 para algo em torno de US$ 27 trilhões, ultrapassando assim os EUA na liderança da economia global.

Essa ideia já e compartilhada e reassegurada por economistas do mundo todo, com algumas discordâncias apenas em quando isso de fato será alcançado. O Diretor Emérito do Instituto Chinês da Universidade de Alberta, Gordon Houlden, analisa que em termos de PIB nominal, a economia dos EUA ainda é maior, mas se usarmos a Paridade do poder de compra, que mede o quanto uma determinada moeda pode comprar em termos internacionais, a economia chinesa já é maior. “Com base nas tendências atuais, a economia dos EUA será a menor em 2030, ou possivelmente antes. Isso será um choque para o mundo ocidental, que se acostumou muito com o status global dos Estados Unidos estando nessa posição de liderança desde a década de 1940”, diz o especialista. E ele conclui que uma vez que a China alcançar esse patamar, a tendência é que essa diferença continue a crescer devido ao tamanho da população chinesa, quatro vezes maior que a dos Estados Unidos. 

 

Dependência mundial em relação à China

No dia a dia podemos nem observar, mas diversos produtos que consumimos têm como origem o país asiático. Desde a roupa que você veste, o celular que usa, a decoração da sua casa, entre outros produtos são “Made in China”. Gordon Houlden destaca: “A China é a maior nação comercial e é o principal parceiro comercial de mais de dois terços dos países. Se tornou a “oficina” do mundo e é a fonte de uma alta porcentagem do comércio global de uma ampla gama de produtos, de padrão cada vez mais sofisticado”. Questões como a enorme mão de obra barata, que reduz os custos de produção, um ecossistema de negócios bem montado, com fornecedores, fabricantes de componentes e distribuidores conectados, que a tornam um local mais eficiente e econômico para fabricar produtos, e o fato das empresas locais geralmente operarem sob um ambiente regulatório muito mais permissivo, em relação à saúde, segurança, e normas ambientais, são fatores que atraem empresas de diferentes partes do mundo para se estabelecerem por lá.

Essa dependência mundial e a relevância do país na rede de abastecimento de produtos global ficou mais evidenciada durante a pandemia, já que a China era um dos principais fornecedores de equipamentos hospitalares, insumos e até mesmo equipamentos de proteção individual, como máscaras e batas. A falta de chips e semi-condutores também fez com que grandes empresas, tal como a Apple, tivessem sua produção interrompida por um certo período.

Houlden acredita que nesse ponto o Canadá poderia buscar uma política de apoio às empresas e indústrias estratégicas, como a de vacinas, por exemplo. “Isso custaria caro, é claro, mas no meu ponto de vista é possível fazê-lo”, diz ele.

A inovação está no topo da lista de prioridades do país. Em 2017, o presidente da China, Xi Jinping, delineou a sua visão para a China se tornar um líder global em ciência e inovação até 2050. Em meio a isso, o país sofre acusações de adquirir tecnologia estrangeira de maneira ilegal a partir das empresas que lá se instalam atraídas pelas facilidades encontradas. Em relação a isso, Houlden considera que as empresas estrangeiras precisam encontrar maneiras de proteger sua propriedade intelectual se quiserem fabricar nesse mercado. “Mesmo que você não fabrique na China, ainda pode haver o risco de seus produtos serem copiados.” E acrescenta “As ambições chinesas são grandes e isso inclui tecnologias emergentes. A supremacia tecnológica chinesa é mais alarmante para o Ocidente, onde se aplica à segurança nacional, mas também é parte de um amplo nervosismo ocidental em relação à ascensão da China. Os canadianos, como muitos outros ocidentais, estão tendo dificuldade com essa ascensão de uma China não democrática como líder da economia global, até mesmo uma superpotência.”

Não à toa, diversos países, entre eles o Reino Unido e Austrália, baniram a empresa chinesa Huawey de entrar na competição por redes de tecnologia 5G nos seus países sob a alegação de que os produtos da empresa podem intencionalmente conter falhas de segurança que seriam usadas pelo governo chinês para espionagem, além da questão já citada do suposto roubo de propriedade intelectual dessas companhias estrangeiras.

 

China x EUA: parceria comercial, competição e acusações

Perder essa hegemonia de ser a maior economia global, que já perdura há décadas, será um grande baque para os EUA, que claro, não assistem esse crescimento de poderio econômico e geopolítico da China sem contra-atacar. 

Essa relação é baseada na competição, mas também numa dependência entre os dois países já que as economias dos Estados Unidos e da China estão intrinsicamente ligadas, devido ao fato de as duas nações compartilharem uma grande parceria comercial de bens e serviços. Os EUA dependem fortemente da China para fornecer produtos de baixo custo que permitem aos consumidores com renda limitada terem acesso aos produtos a um preço acessível. Também dependem da China para apoiar suas próprias exportações; depois do México e do Canadá, a China é o terceiro maior mercado da América e, de longe, o principal no setor de exportação e o que cresce mais rápido. A contrapartida também existe, já que a China, uma nação altamente exportadora, encontra no sempre aquecido e ávido por consumo mercado norte-americano seu principal cliente.

Sob a liderança de Donald Trump, em 2018, essa disputa atingiu o auge e chegou a ser tratada como “guerra”, com as relações sendo marcadas por imposições de tarifas sobre produtos importados, barreiras comerciais e até acusações de espionagem. A escalada das tarifas de importação causou interrupções na cadeia de abastecimento que afetaram, e ainda afetam, empresas e indivíduos em todo o mundo. Em janeiro, um estudo encomendado pelo Conselho de Negócios EUA-China descobriu que a guerra comercial custou 245.000 empregos nos EUA, enquanto uma redução de tarifas de ambos os lados criaria 145.000 empregos até 2025.

Em novembro deste ano aconteceu um encontro virtual entre o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o líder da China, Xi Jinping, que segundo especialistas ajudou a aliviar a tensão crescente entre os dois países, mas não avançou na resolução das disputas da guerra comercial entre os dois países.

Nosso entrevistado dessa edição, Gordon Houlden, acredita que de fato, a China está tentando remodelar algumas regras do sistema de comércio internacional, mais notavelmente da Organização Mundial do Comércio, organização internacional que lida com as regras globais de comércio, mas também está preparada para trabalhar fora desse sistema da OMC. Um exemplo disso é o pacto comercial EUA-China Fase I, que estabelece que os EUA vão diminuir as tarifas impostas aos produtos chineses, enquanto o país asiático comprará mais 200 bilhões de dólares em produtos americanos, que foi negociado durante a presidência de Trump, mas apoiado pelo governo Biden.

Diversos especialistas acreditam que essa disputa está longe de acabar, na verdade irá apenas ser intensificada e de certeza seguirá aquecendo e ditando as regras da economia global. O analista Joe Mazur, da Trivium China, em recente entrevista ao website Aljazeera disse que “Washington buscará cada vez mais conter a influência econômica chinesa promovendo suas próprias iniciativas de comércio e infraestrutura. Isso naturalmente gerará mais competição econômica entre os EUA e a China, mas pode resultar em benefício de outros países em posição de escolher os termos de suas parcerias econômicas com Washington, Pequim ou ambos.”

 

Canadá e China – diplomacia em choque, relações comerciais nem tanto

A relação entre os dois países, e em especial a maneira como o Canadá percebia a China, sofreu um grande impacto a partir uma desavença diplomática, que obviamente respingou nas relações comerciais entre ambos. Em 2018 as autoridades canadianas prenderam, atendendo um pedido dos Estados Unidos, a alta executiva da empresa Huawei Meng Wanzhou. Como forma de retaliação, oficialmente negada pelo governo chinês, dois cidadãos canadianos, Michael Spavor and Micheal Kovrig foram detidos na China acusados de espionagem. A briga se arrastou por três anos, até que depois de um acordo, a executiva chinesa foi solta e logo em seguida, os dois canadianos também foram trazidos de volta ao Canadá. Em relação a isso, o diretor-emérito do Instituto Chinês da Universidade de Alberta, analisa da seguinte forma: “Esse caso prejudicou as relações bilaterais e a opinião da maioria dos canadianos em relação à China. Mas a relação comercial entre o Canadá e a China não foi prejudicada. Na verdade, o nível de comércio cresceu mais de 8% em 2020, enquanto nosso comércio com outras grandes economias encolheu.”

Segundo dados da Statistics Canada em 2021 as exportações canadianas para a China aumentaram 37,8% nos primeiros três meses em comparação com o mesmo período de 2020. Carvão, minérios e produtos agrícolas como semente e óleo de canola estão entre os principais produtos exportados. Em contrapartida, as importações também aumentaram mais de 32% e os produtos eletrônicos como computadores, celulares, máquinas indústrias, seguidos por brinquedos e matérias têxteis, como roupas e máscaras são os principais artigos trazidos da China para venda no Canadá.

A intenção de depender menos da China foi confirmada no discurso no passado mês, quando o governo Liberal apresentou as ideias para o novo mandato. Atualmente, as negociações para um projeto de comércio livre foram retomadas com a Índia e tratativas com a Associação das Nações do Sudoeste Asiático, um bloco de 10 países que inclui as Filipinas, Indonésia e Tailândia também estão a acontecer.

 

Lizandra Ongaratto/MS

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