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Geringonça made in Canada

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Em consequência do resultado das eleições legislativas de 4 de outubro de 2015 em Portugal, António Costa do Partido Socialista forma um governo com o apoio parlamentar de mais três partidos políticos com posicionamentos ideológicos dentro do espectro político da esquerda, o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista e o partido Os Verdes. Estes partidos garantiram a maioria dos assentos no Parlamento, dando a oportunidade ao PS de governar com estabilidade durante anos. Foi uma aliança histórica de quatro partidos de esquerda e formou-se um governo minoritário. Esta aliança tinha como principais pontos da governação acabar com os cortes salariais, aumentar o salário mínimo e aumentar os benefícios sociais. Esta forma de governo foi apelidada de ‘geringonça’. Uma palavra exclusivamente portuguesa que vem a ser a denominação para uma máquina ou dispositivo que parece estranho ou desnecessariamente complicado, e muitas vezes é mal feito ou inseguro. Uma denominação incorreta, diga-se, pelo sucesso que esta forma de governação teve e o impacto positivo para Portugal e os portugueses.

Se a palavra geringonça é uma exclusividade da língua portuguesa, a ideia que transmite passa a não ser. No Canadá acabamos de ver um acordo muito parecido. Penso e acredito que esta solução política terá um impacto positivo a nível social e económico como aliás teve em Portugal. Esteve certo na estratégia o primeiro-ministro Justin Trudeau ao negociar este acordo com Jagmeet Singh, líder do NDP. A estabilidade governativa é essencial num momento em que o aumento da inflação em consequência da Covid, do clima de Guerra Fria, se está a revelar um grande problema para os canadianos. Esta solidez e firmeza estão alicerçadas num acordo até 2025. Este tempo dará oportunidade aos liberais de governar e no final o povo pode escolher com legitimidade e conhecimento a continuidade ou não desta configuração governativa liberal. Faz bem Justin Trudeau em dialogar não só com o NDP como também como o próprio disse abrir portas a conversações com outras esferas políticas.
Ninguém pense que é fácil um acordo destes, para elaborar, e mais do que isso para cumprir. Irão acontecer vários momentos de tensão, mas seria bom que os egos deixassem que este acordo de governança funcionasse até ao seu término, ou seja, que deixasse que fossem aprovados os quatro orçamentos, pois é nisto que este reside. O facto de os dois líderes se reunirem trimestralmente pode ajudar na aproximação de ideias e concretização de objetivos pré-definidos.

Quem corre mais riscos com este acordo alicerçado principalmente na área da saúde é o NDP pois basta olhar ao que aconteceu em Portugal com os partidos que fizeram parte da “geringonça”: Os Verdes desapareceram do Parlamento e Bloco de Esquerda e o Partido Comunista quase se evaporaram. Não se pense que estamos a falar de uma coligação governamental, é errado pensar isso. O acordo é somente, tal como aconteceu em Portugal, parlamentar. O grande problema será quando o NDP sentir que seu espaço está a ser reduzido e a ficar vazio podendo assim criar novamente instabilidade política. Por isso eu defendo a criação de um escrutínio eleitoral com apenas dois partidos e aquele que ganha pode governar com estabilidade durante todo o mandato pondo em prática as suas ideias que devem ser julgadas no final da legislatura. Parece antidemocrático? Não é. Dentro destas duas fações, uma de esquerda e outra de direita cabem todos os movimentos possíveis e imaginários e todos têm representação.

Porque mesmo que esta geringonça made in Canada funcione, tempos atribulados de chantagem e gestão de egos vão ocorrer durante quatro anos. Desgastando uma das partes. Vamos ver por onde parte a corda quando esticar. Em Portugal o PS ganhou e o país também. Espero que aconteça o mesmo com o Canadá. Em boa hora Justin Trudeau trouxe esta lufada de ar fresco ao Canadá, pois como diria Maquiavel… “quando um príncipe deixa tudo por conta da sorte, ele se arruína logo que ela muda. Feliz é o príncipe que ajusta seu modo de proceder aos tempos, e é infeliz aquele cujo proceder não se ajusta aos tempos.”

Vítor M. Silva/MS

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