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Centenas de crimes mas poucas condenações no maior ataque à democracia dos EUA

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WASHINGTON, DC – JANUARY 06: Protesters gather outside the U.S. Capitol Building on January 06, 2021 in Washington, DC. Pro-Trump protesters entered the U.S. Capitol building after mass demonstrations in the nation’s capital during a joint session Congress to ratify President-elect Joe Biden’s 306-232 Electoral College win over President Donald Trump. Tasos Katopodis/Getty Images/AFP
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Mais de 150 pessoas confessaram ter participado na invasão ao Capitólio, há um ano. Comissão de investigação quer respostas até ao verão.

O maior ataque à democracia dos EUA ainda está envolto num grande mistério e, até agora, foram aplicadas poucas penas. Um ano depois, existem muitas pontas soltas e várias questões por responder. Uma coisa é certa: o ataque ao Capitólio não foi um ato isolado e, muito menos, um episódio espontâneo.

Cinco mortos, 140 feridos e mais de 700 processos-crime resultaram da violenta invasão que foi planeada minuciosamente pela ala radical republicana, e está agora a ser investigada por uma comissão especial da Câmara dos Representantes. Caso seja provado que Trump esteve por trás de toda a conspiração que deu origem ao ataque, o ex-presidente arrisca um processo criminal.

As tentativas para comprovar a fraude eleitoral não foram comprovadas e, a 7 de janeiro, o então vice-presidente Mike Pence formalizou a vitória de Joe Biden, contrariando a vontade do antigo líder.

Os agentes federais iniciaram as investigações no próprio dia em que ocorreu o assalto ao Capitólio. Na tentativa de apurar responsabilidades, as autoridades analisaram redes sociais, vídeos e verificaram denúncias anónimas. Este trabalho é “uma das maiores investigações da história do FBI”, explica Lorenzo Vidino, diretor do “Programa sobre Extremismo” da George Washington University, à AFP.

Corrida contra o tempo

A comissão, que até agora interrogou quase 300 pessoas, deverá apresentar o primeiro relatório preliminar no verão, antes das eleições intercalares que se realizam em novembro de 2022, altura em que os republicanos irão tentar recuperar o controlo da Câmara de Representantes e do Senado para limitar as ações do presidente democrata.

Mas para isso, é preciso ultrapassar os vários obstáculos que estão a ser levantados pelo antigo presidente. Recentemente, Trump invocou o “privilégio do poder executivo” para impedir que os documentos com informações sobre o que se passava na Casa Branca aquando do ataque não fossem transmitidos à comissão. A equipa jurídica de Trump tem argumentado que a divulgação de conversas e documentos poderá prejudicar o discurso e discussão para futuras administrações. Contudo, em dezembro, um tribunal federal negou o recurso.

Até agora, os esforços da justiça permitiram que mais de 700 pessoas fossem indiciadas por vários crimes, mas esta é uma lista que não para de crescer. O FBI acredita que mais de dois mil indivíduos estiveram envolvidos no episódio violento.

Entre as centenas de desordeiros que ajudaram a planear o ataque, destaca-se o facto de serem sobretudo homens, brancos e com uma idade média de 39 anos, de acordo com uma pesquisa da George Washington University. Relativamente ao perfil socioeconómico, são pessoas com ocupações profissionais muito diferentes.

A maior parte dos envolvidos está a ser julgada por crimes menores como perturbação da ordem pública. Os procuradores estão a julgá-los de forma rápida e eficaz mediante um acordo de confissão: mais de 150 pessoas já beneficiaram daquele programa e pelo menos 50 sentenças foram proferidas.

Algumas das penas mais duras foram conhecidas recentemente e recaíram sobre cerca de 225 pessoas acusadas de terem cometido atos violentos, especialmente, contra os polícias do Capitólio. Neste grupo, cerca de 40 pessoas estão a ser julgadas por associação criminosa, o que implica ter planeado o ataque.

Até ao final de dezembro, refere o “Politico” apenas sete pessoas foram condenadas por crimes graves, sendo que o tempo médio de prisão aplicado a estes arguidos é de 45 dias. Esta acusação, a mais grave de todas, é dirigida, em particular, aos membros dos grupos de extrema-direita, como é o caso dos Proud Boys.

Uma análise do jornal às sentenças conhecidas até agora, mostra que os juízes têm sido cautelosos ao impor longas penas de prisão, exceto quando a violência esteve envolvida. Pouco mais da metade dos réus que se confessaram culpados ainda aguardam sentença e alguns dos casos mais graves de violência contra agentes da polícia ainda aguardam um final.

Difícil de provar

Ainda não houve acusações de sedição, ou insurreição, uma vez que estas são mais difíceis de provar. Falta determinar quem, entre aqueles que não estiveram no local, incitou, ou orquestrou, a invasão ao Capitólio. Por enquanto, os promotores deixaram para os parlamentares a investigação. Eugene Robinson, colunista do jornal norte-americano “The Washington Post”, sugere que a justiça deve ser feita, até porque “ninguém está acima da lei”.

Embora os senadores republicanos tenham permitido que Trump fosse absolvido de um processo de “impeachment” em fevereiro, o antigo presidente ainda não pode respirar de alívio. Uma comissão de inquérito da Câmara de Representantes está a tentar descobrir qual foi o papel do magnata no acontecimento, sendo que pelo menos 12 agentes já processaram o ex-presidente pelo papel que terá tido durante o ataque. Se conseguirem encontrar provas para acusá-lo, uma nova página da investigação será aberta.

Trump não vai falar

Donald Trump cancelou a conferência de imprensa programada para esta quinta-feira e anunciou que vai abordar o tema num comício em 15 de janeiro.

Em comunicado divulgado na terça-feira, Trump apontou o dedo à comunicação social e à comissão de investigação da Câmara dos Representantes que procura apurar o papel do republicano, e da sua equipa. “À luz do preconceito total e da desonestidade da Comissão vou cancelar a conferência de imprensa (…) e, em vez disso, vou apresentar muitos destes tópicos importantes no meu comício no sábado, 15 de janeiro, no Arizona”, referiu o ex-presidente.

O magnata rejeita manter-se discreto apesar das investigações em curso por parte do painel da Câmara dos Representantes a quem os seus advogados tentam negar o acesso aos documentos da Casa Branca relacionados com aquele dia.

Joe Biden irá discursar no Capitólio, onde há cerca de um ano milhares de apoiantes de Trump tentaram impedir a certificação da sua vitória. O presidente tem referido que a democracia norte-americana está “ponto de inflexão”, garantindo que a pode salvar.

JN/MS

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