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Água: Um bem que pode ter fim

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Consegue imaginar uma vida em que a água potável seja um bem raro de se encontrar? A falta de acesso a um dos bens mais preciosos para a nossa sobrevivência traz consequências para a saúde pública, para o desenvolvimento económico e para o comércio global, além de despoletar migrações em massa e conflitos. Imagine um cenário onde, diariamente, mulheres e meninas gastam 200 milhões de horas para recolher água. Onde anualmente, morre 1 milhão de pessoas devido à falta de acesso a água, saneamento e às doenças que esta crise gera. Infelizmente, este cenário apocalíptico já é uma realidade em muitas partes do mundo.

Apesar de 71% do planeta Terra ser composto por água, apenas 2.5% é água doce e dessa, apenas 1% está acessível. Neste momento, 771 milhões de pessoas – ou seja, 1 em cada 10 – não tem acesso a água potável. Atualmente, a escassez de água já é um problema que devasta todos os continentes. A atual crise pandémica que enfrentamos com a Covid-19 veio-nos relembrar da importância do acesso a água potável, de infraestruturas de saneamento e cuidados básicos de higiene que nos podem salvar a vida. E, portanto, é urgente que todos os países se comprometam a incentivar praticas sustentáveis e inovadoras numa posição de cooperação internacional.

A realidade de um consumo leviano

Nos últimos 50 anos, a população mundial mais do que duplicou. Este crescimento apressado, acompanhado pelo desenvolvimento económico e industrialização, transformou os recursos hídricos e resultou numa enorme perda de biodiversidade.

Cerca de 72% do consumo de água destina-se à agricultura, 16% aos municípios para uso em residências e serviços e 12% é utilizado pelas indústrias. A este consumo desmesurado, acrescenta-se o desperdício. Cerca de 60% da água utilizada pela agricultura é desperdiçada devido a sistemas de irrigação ineficazes e sistemas de cultivo ineficientes. Muitos dos países que nos garantem sustento, como a Índia, China, Austrália, Espanha e Estados Unidos, já atingiram o seu limite de recursos hídricos.

A água não nos mata só a sede, garante a nossa vida e está presente em tudo o que nos rodeia.

Para produzir 1kg de carne bovina são necessários 15.415 litros de água. E para acompanhar, 1kg de arroz – ou seja, 2.487 mil litros de água. Um pé de alface requer 237 litros. A chávena de café que toma ao pequeno-almoço necessitou de 132 litros de água para chegar até si. E para se vestir, saiba que uma camisa de algodão de 250g precisa de 2.500 litros e para umas calças jeans são cerca de 3.556 litros de água.

O impacto da escassez de água no desenvolvimento económico e na saúde pública

Anualmente, quase 4 mil milhões de pessoas (quase dois terços da população mundial) sofrem durante pelo menos um mês de uma situação de grave escassez de água. Esta privação além de afetar a capacidade económica dos países e a possibilidade de produzir alimentos e bens essenciais, também afeta cada cidadão ao limitar o seu consumo. A carência deste recurso pode estimular a transmissão de doenças como a cólera, febre tifoide, hepatite A e muitas outras condições que poderão ser mortais. E ainda, comunidades com insegurança alimentar enfrentam problemas como fome crónica, onde as crianças são as principais vítimas enfrentando estados de desnutrição, nanismo e doenças crónicas derivadas de uma alimentação pobre. Segundo a Water.Org, a cada dois minutos morre uma criança devido a uma doença relacionada com água.

Num panorama onde o acesso a recursos essenciais falha, acentuam-se a pobreza e as desigualdades bem fincadas entre comunidades ricas e comunidades pobres. O Médio Oriente e o Norte de África são zonas onde a escassez de água é há muito um problema impactante já que recebem menos chuva e são densamente povoados. No entanto, os Emirados Árabes Unidos, um país rico, tem a capacidade de importar quase todos os seus alimentos, aliviando a necessidade de utilizar água para agricultura.

Apesar de nos poder parecer uma realidade distante, é bem mais próxima do que imaginamos. No Canadá, a maioria das comunidades de First Nations não tem acesso a água potável. A contaminação da água, a dificuldade no seu acesso e a falta de sistemas de tratamentos eficientes deixam à margem aquele que é um direito humano reconhecido pelas Nações Unidas. Em 2016, o Governo do Canadá anunciou planos para reformular a situação, mas até ao momento é mais uma promessa sem efeito.

Como o aquecimento global está a afetar o acesso a água potável

Espera-se que o aquecimento global aumente o número de áreas em stress hídrico, uma realidade que será primeiramente sentida em zonas áridas. Zonas subtropicais como a Austrália, o sul dos Estados Unidos e os países do Norte de África vão ver as suas temperaturas aumentar e, portanto, secas mais frequentes e longas. No entanto, quando as chuvas ocorrerem, projeta-se que sejam intensas. Isto, será particularmente desafiante para a agricultura. O acesso das comunidades a alimentos será posto em causa quando as chuvas se tornarem imprevisíveis e o aumento das temperaturas acelerar a evaporação da água do solo. Calcula-se também que um clima mais inconstante traga mais inundações, que podem destruir plantações e sobrecarregar as estações de tratamento.

As consequências que já se evidenciam por todo o mundo

Apesar de os cidadãos de países desenvolvidos ainda não se terem apercebido da importância de tratar a água como um recurso finito, os efeitos já se estenderam muito além do continente africano e do Médio Oriente.
A Comissão Europeia estima que cerca de 17% da população já foi afetada pela escassez de água e o custo das secas na Europa, nos últimos 30 anos, já ultrapassou os 100 mil milhões de euros. Portugal está entre os países que recorrem a pelo menos 40% da sua reserva de água, deixando-o numa posição vulnerável e cada vez mais próxima do Dia Zero – o dia em que ficamos sem acesso a água canalizada.

No Canadá, um país que possui 20% dos recursos de água doce a nível global, a escassez já se evidenciou várias vezes. Isto porque apenas 7% desses recursos são considerados renováveis e a sua maioria está localizado em Hudson Bay e no Oceano Ártico. Em 2015, Regina e Moose Jaw viram-se obrigados a racionar o abastecimento de água devido à incapacidade de tratar a proliferação de algas tóxicas em Buffalo Pound Lake que fornece água potável para as duas cidades. Em 2016, uma seca prolongada conduziu a restrições no consumo de água em Ontário e Nova Escócia. O mesmo aconteceu em 2018, no sul de Alberta, onde as comunidades agrícolas se viram afetadas pela redução do caudal do rio. Neste país, tanto as secas como as inundações são diretamente influenciadas pelo degelo das Rocky Mountains. A neve que cai providencia-nos tudo – desde água para consumo a irrigação para a agricultura. O desaparecimento dos glaciares afeta diretamente o abastecimento de água a todas as comunidades do norte da américa. E nos últimos 30 anos, desapareceram mais de 300 glaciares.
Ao problema das secas e inundações, acrescentam-se o dos incêndios florestais que têm sido anunciados um pouco por todo o mundo, e com grande intensidade na Califórnia, na Colômbia Britânica no Canadá, na Austrália e em Portugal. O que por si só, também representa uma ameaça à água potável.

Fenómenos de longos períodos de seca, inundações sem aviso prévio, incêndios florestais descontrolados e o degelo contínuo resultam em danos para comunidades em todas parte do mundo, afetando gravemente a biodiversidade e os recursos que temos à disposição. A crise climática está a transformar-se numa crise hídrica.

Inês Carpinteiro/MS

 

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