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Afinal quem nos governa?

 

milenio stadium - Prime Minister Justin Trudeau holds a press conference at NATO headquarters in Brussels, Belgium on March 24

 

A notícia do acordo entre o governo Liberal minoritário e o NDP modificou o cenário político canadiano, reacendeu rivalidades e a animosidade diante do governo do primeiro-ministro Justin Trudeau e de sua maneira de conduzir o país. Para alguns, como o partido oficial de oposição, o anúncio pode ter sido uma surpresa enquanto outros especialistas do setor político afirmam que ele já vinha se desenhando há algum tempo.

Na tentativa de entender o que está para trás desse acordo e os acontecimentos que o impulsionaram a acontecer, além de consequências que trará para os partidos e figuras políticas envolvidas, e para o Canadá, claro, esta edição se propõe a fazer um breve resumo da trajetória política do atual primeiro-ministro Justin Trudeau, analisar situações políticas, econômicas e sociais dos últimos meses e como ele se comportou diante delas, para que possamos perceber melhor a forma como chegamos a esse desenho político atual e o que se pode esperar dele.

JUSTIN TRUDEAU- UM POLÍTICO DE “BERÇO”

Justin Trudeau tem a política “correndo nas veias”, como costuma-se dizer. Desde pequeno já teve os holofotes do público, e do poder, voltados para sua família. O avô materno foi o antigo MP James Sinclair e o pai, Pierre Trudeau, um expoente do partido Liberal e que ocupou o cargo de primeiro-ministro do Canadá por 15 anos. Na vida acadêmica, se formou na Universidade McGill com um Bacharelado em Artes em 1994 e completou o programa de educação da Universidade da Colúmbia Britânica e lecionou em Vancouver durante alguns anos. Foi em 2000, aos 28 anos, no funeral do pai que voltou a atrair atenção nacional com um eloquente discurso de homenagem. O primeiro-ministro da época logo o fez saber que havia um lugar para ele no partido, mas foi só anos depois, em 2008, que abraçou a vida política, se elegendo para o cargo de MP do riding de Papineau, em Montreal. Com o passar do tempo Trudeau começou a construir sua própria carreira e sair da sombra do conhecido pai. Em 2011, apesar da derrocada do partido, que passou de oposição oficial a terceiro partido nacional, foi reeleito ao cargo e em 2013 alçou-se a líder do Partido Liberal, e segundo especialistas na área, era visto dentro do partido como a melhor esperança para devolver os dias de glória e protagonismo aos liberais. O combo beleza, juventude e carisma de fato o favoreciam. Em outubro de 2015 foi eleito primeiro-ministro do Canadá, com um governo maioritário. Em 2019 a vitória veio, mas dessa vez não foi tão contundente, já que o olhar público, e da oposição, já estava mais aguçado e algumas polêmicas e críticas a sua trajetória e maneira de governar vieram à tona. No passado mais recente, em 2021, Trudeau ainda conseguiu se manter no poder com mais um governo minoritário, e num cenário bem menos confortável dada a conjuntura econômica, política e social… o que exigiu novas articulações e manobras, mas esse tema receberá destaque especial ao longo desse texto.

ESCÂNDALOS… ANTIGOS E MAIS ATUAIS

Uma vez que os holofotes se voltam para uma pessoa é difícil passar incólume pelo escrutínio da imprensa, desafetos políticos e opositores. Com Justin Trudeau não haveria de ser diferente.

O ano era 2018 quando a revista norte-americana Time divulgou uma foto de Trudeau do livro escolar de 2001 da escola em que lecionava, onde pintou o rosto de preto para fazer alusão ao personagem Alladin, numa festa com o tema de “Arabian Nights”. Trudeau veio à público se desculpar. Naquela época, o agora aliado de Trudeau, o líder do NDP, Jagmeet Singh, um sikh, caracterizou o episódio como “insultante” e questionou se o Trudeau público e privado eram a mesma pessoa. Em seguida a imprensa divulgou uma outra foto, dessa vez da década de 90, onde o então garoto Justin usava uma “blackface” para uma apresentação escolar. O gosto peculiar de Trudeau de se “fantasiar” com máscaras de rostos pretos foi um prato cheio para os críticos questionarem a autenticidade das suas falas em relação a inclusão e tolerância. Um novo e reiterado pedido de desculpas e uma mancha no currículo.

No início de 2019 o primeiro-ministro se viu em meio a pior crise política sofrida pelo seu governo até então, quando enfrentou alegações de que membros políticos do seu governo haviam pressionado Jody Wilson-Raybould, que era procuradora-geral e ministra da Justiça à época, para intervir a favor da SNC-Lavalin, num caso de corrupção e fraude que a empresa com sede em Montreal respondia, num esforço para poupar a gigante da engenharia de processos criminais. Naquela altura, a oposição chegou a pedir a renúncia de Trudeau, o que não se concretizou, apesar de outros altos nomes do governo, entre eles, Wilson-Raybould, terem renunciado ao cargo. Esse foi o episódio, no entanto, que fez com que a credibilidade de Trudeau fosse questionada por próprios aliados do partido. Uma investigação conduzida pela Canadian Conflict of Interest and Ethics considerou que ele de fato violou as regras de conduta ética do cargo.

Outro escândalo se deu em meio a pandemia, quando o governo federal através do programa Canada Student Service Grant disponibilizava ajuda financeira para estudantes de ensino superior que não conseguiram encontrar trabalho por causa da pandemia. A questão é que Trudeau foi acusado de ao invés de procurar licitações competitivas para administrar esses contratos milionários, os ceder inteiramente a WE Charity, uma organização que se descobriu mais tarde tinha estreitas ligações com a família de Trudeau (a mãe dele e o irmão receberam altas quantias para realizar palestras, por exemplo) e com o ministro das Finanças, Bill Morneau, que acabou renunciando ao cargo e afastando-se da política.

PERMANÊNCIA NO PODER (REELEIÇÃO de 2021 “BITTER SWEET”)

Era agosto de 2021, o Canadá lidava com mais uma onda da pandemia de Covid-19, que trouxe difíceis consequências econômicas e sociais ao país, quando Justin Trudeau anuncia uma eleição federal antecipada que acabou por custar aos contribuintes mais de $600 milhões de dólares. A justificativa dele foi que essa era a chance para os canadianos escolherem quem eles queriam que liderasse o país em meio à difícil realidade imposta pelas restrições pandêmicas. Para a oposição e críticos era uma mostra clara da soberba política e oportunismo de Trudeau, que foi acusado de não pensar de fato no país, e sim nas suas pretensões pessoais de garantir poder a qualquer custo e tentar retomar a maioria dos assentos na Câmara dos Comuns.

Do outro lado, a oposição oficial tinha na liderança dos Conservadores, Erin O’Toole. Trudeau e os Liberais ganharam, mas nem de longe alcançaram a maioria tão esperada. Ao fim das eleições viu-se um gasto extraordinário aos cofres públicos, sendo essa a eleição mais cara da história do país por causa dos custos acrescidos com a pandemia, justamente num momento de recessão econômica tremendo. O resultado: Justin Trudeau segue a se equilibrar no cargo de primeiro-ministro, mas se vê encurralado num governo minoritário, o que complica a sua governabilidade.

 

 

COMBOIO DA LIBERDADE: MEDIDAS POLÊMICAS E CRÍTICAS

Durante quase um mês as ruas centrais de Otava foram tomadas e viraram estacionamento de milhares de caminhões e veículos pesados como uma forma de manifestação de um determinado grupo de canadianos que dizia ser contra as restrições e imposições do governo, como mandatos de vacina e encerramento de negócios, relacionadas a pandemia de Covid-19. O grupo que liderava o intitulado “Freedom Convoy”, ou em tradução livre, “Comboio da Liberdade” dizia que só deixaria as ruas da capital quando os mandatos relacionados a pandemia fossem extintos. O primeiro-ministro Justin Trudeau se negou a conversar ou ter um encontro com os líderes do movimento, que classificou de criminoso.

Diante da escalada da violência e da falta de flexibilidade dos manifestantes Trudeau tomou uma medida inédita e fez história ao invocar o Emergencies Act (Lei de Emergências) dispositivo legal que autoriza o governo a tomar medidas extraordinárias por um período temporário, numa tentativa de acabar com os protestos. A justificativa era de que a força policial sozinha não estaria sendo suficiente para controlar a situação.

As críticas vieram de diferentes setores, desde grupos de defesa das liberdades civis, legisladores da oposição e vários Premiers, que consideraram a atitude um exagero do governo. O PC considerou que a medida foi invasiva e que Trudeau abusou do poder que o cargo de primeiro-ministro lhe confere, provocando mais divisão no país, ao invés de tomar medidas conciliatórias.

Ao fim de dez dias o governo revogou o ato emergencial e os manifestantes acabaram aos poucos deixando as ruas da capital, num momento em que também as restrições pandêmicas começaram a ser abrandadas por todo o país. A repercussão do movimento, no entanto, ultrapassou fronteiras e colocou o Canadá, e consequentemente, Trudeau, no centro da atenção mundial e os olhares e análises nem sempre foram positivos.

O CANADÁ (E TRUDEAU) SOB OS OLHARES DO MUNDO

Eis que no momento em que o auge da pandemia parecia ter chegado ao fim, e aos poucos, os governos vão devolvendo as liberdades individuais e coletivas às pessoas e a vida parece voltar ao eixo…uma guerra se inicia na Europa e mobiliza o mundo. Desde o início da invasão da Rússia à Ucrânia o governo canadense se mostrou solidário ao ucraniano e além de enviar reforço de ajuda militar, também contribui com ajuda humanitária e abrigo aos refugiados. Neste mais de um mês de conflito o primeiro-ministro esteve por mais de uma vez na Europa para participar de conversas estratégicas com parceiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

Numa das viagens mais recentes neste mês, o discurso de Trudeau no Parlamento Europeu repercutiu, e não tanto pelo seu conteúdo em si, mas mais pelo histórico recente de atitudes tomadas pelo líder canadense, seja pelas imposições pandêmicas restritas à população, seja pela maneira como lidou com a manifestação dos caminhoneiros em Otava. Alguns membros do Parlamento, em especial ligados a partidos de extrema-direita, como o eurodeputado independente croata, Mislav Kolakušić, o chamou de “ditador” e “autoritário que atropela os direitos civis”. “Sr. Trudeau, o senhor é uma vergonha para qualquer democracia”, foi o que disse a deputada alemã Christine Anderson, porta-voz política do grupo parlamentar ID no Parlamento Europeu por meio de seu partido Alternativa para a Alemanha.

Os comentários também trouxeram à tona uma polêmica do passado, no qual uma teoria da conspiração lançada na internet dava conta que de Justin Trudeau poderia ser filho do ditador cubano, Fidel Castro, devido às ligações da família Trudeau com Castro, à época que seu pai Pierre Trudeau liderava o país, e o próprio Justin Trudeau, na ocasião da morte de Fidel Castro em 2016 causou alvoroço nas redes sociais ao elogiar o ditador e classificá-lo de “líder revolucionário”.

As críticas à postura do governo federal no cenário internacional também estão relacionadas à maneira muito “amigável” e condescendente com que o Canadá reage a diversas políticas econômicas adotadas pelos Estados Unidos de protecionismo, e que consequentemente prejudicam a economia canadense. Mais recentemente no setor de veículos elétricos, Joe Biden anunciou que uma expressiva quantia do dinheiro será devolvida a quem comprar um veículo elétrico contanto que seja produzido naquele país. Anos atrás o então presidente Donald Trump elevou as tarifas impostas ao aço e alumínio canadense. Para alguns críticos as respostas de Trudeau a essas políticas não são suficientes e a piada que já circulou no meio online é que Justin Trudeau estaria se preparando para ser o próximo candidato à presidência dos Estados Unidos.

ACORDO ENTRE PARTIDOS LIBERAL E NDP: VALE TUDO PELA GOVERNABILIDADE OU PELO PODER?

O ato mais recente que voltou a colocar Trudeau num escrutínio popular, e mediático, foi oficialmente anunciado no dia 22 deste mês. A partir da assinatura do “The Confidence and Supply Agreement”, Liberais e Novos Democratas se unem e dessa forma Trudeau se garante no poder até 2025. Os partidos votam juntos nas principais propostas e garantem a maioria dos votos na Câmara dos Comuns.

Ambos concordaram em permitir um “debate saudável” no Parlamento enquanto se comunicam constantemente, inclusive em reuniões trimestrais de líderes e reuniões mensais de “avaliação”, para garantir que permaneçam na mesma página do acordo. Qualquer um dos partidos pode desistir do acordo se os compromissos não forem cumpridos. Essa troca de favores, claro, está sujeita a inúmeras condições, como priorizar diversas políticas defendidas pelo NDP, como por exemplo, a criação de um plano nacional de medicamentos financiado pelo estado e a cobertura de gastos com dentistas para os canadenses que ganham menos de $90 mil dólares por ano. Se em algumas questões os partidos concordam abertamente, outras ainda são nebulosas aos olhos públicos, como por exemplo, um aumento dos gastos do governo federal no setor da Defesa, algo que a Nato vem pedindo reiteradamente, e que o NDP não parece ser tão favorável.

A resposta virá a partir da divulgação do Orçamento Federal no próximo dia sete de abril. A previsão é de que para dar conta desses pedidos de políticas sociais serão necessários mais gastos públicos, o que pode colocar ainda mais pressão sobre os ombros de futuras gerações de canadenses.

O fato é que esse acordo, aliança, coligação, são diversas as classificações que já foram feitas, revelou muito mais do que um mero “acordo” entre partidos para manter a governabilidade, como foi classificado pelos agora aliados. A oposição não poupou críticas, e a líder interina dos Conservadores, Candice Bergen, classificou como uma espécie não declarada de socialismo e “uma tentativa de governar de chantagem”, além disso, claro, num discurso disse que essa parceria era um reflexo da luta de Justin Trudeau por obter, e se manter no poder, a qualquer custo. Vale lembrar que os Conservadores não passam pelo seu melhor momento político, tendo recentemente tirado o Erin O’Toole do poder e aguardam pelo próximo líder, que terá que fazer frente aos liberais com menos poder de fogo na Câmara dos Comuns. A eleição do PC acontece a 10 de setembro e entre os principais candidatos estão Pierre Poilievre, MP do riding de Carleton em Otava; Jean Charest, antigo Premier do Quebec; Leslyn Lewis, MP do riding de Haldimand-Nortflok em Ontário e Patrick Brown, atual autarca de Brampton,ON.

As análises do que esse acordo entre os partidos Liberal e NDP na esfera federal representa são diversas e variam de acordo com o gosto, e viés político, de quem as faz. Os liberais e defensores do governo defendem que o acordo é legítimo e busca a governabilidade. Na visão dos conservadores ele não respeita os eleitores e a partir de agora quem governa o país é Jagmeet Singh. São os próximos capítulos dessa história que vão nos revelar quem são na verdade os que saíram e sairão perdendo ou ganhando. Aguardemos.

Lizandra Ongaratto/MS

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