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A China no comando do mundo

Transportes Internacionais e Logística

A China no comando do mundo - mileniostadium
(Cameron Venti/ Unsplash)

 

Para dar uma dimensão mais objetiva e clara da crescente dependência do mundo em relação à China é quase obrigatório falarmos do setor da logística e transportes internacionais. Efetivamente, estamos a falar do país que tem cerca de 95% do volume de mercadorias transportadas no comércio exterior, com rotas internacionais que o ligam a mais de 120 países e regiões. Além disso, a China tem a maior movimentação de portos do mundo inteiro, com cinco grandes locais de cargas e descargas ao longo da costa: o Bohai Economic Rim, a Delta do Rio Yangtzé, a Área da Grande Baía de Cantão-Hong Kong-Macau.

Arnon Melo - mileniostadium
Arnon Melo, Presidente e Fundador da MELLOHAWK Logistics. Créditos: DR

O transporte marítimo internacional é hoje, portanto, muito dominado pela China. Recentemente, com a crise pandémica, ficou mais evidente do que nunca esta realidade – quando o gigante asiático pára, o mundo pode mesmo entrar num estado quase comatoso. É que, como sublinha Florbela Moreira, um quadro qualificado de uma multinacional de transporte internacional (que pediu para não identificarmos), “infelizmente o mundo inteiro ainda está muito dependente da China no que diz respeito a muita da matéria-prima que necessitamos para produzir quase tudo. Principalmente componentes elétricos, retalho, têxteis, farmacêutica, brinquedos, enfim, uma parafernália de artigos muito conhecidos para todos nós, e que não se podem produzir “do lado de cá” na totalidade, somente porque não temos fornecedores mais próximos geograficamente e com valores na mão de obra e compra dos produtos tão competitivos como os da China.”

Arnon Mello, Presidente e Fundador da MELLOHAWK Logistics, uma empresa Internacional de transporte de cargas baseada em Mississauga, Ontário, reforça a ideia do domínio chinês e aponta o baixo custo de produção como razão principal – “O mundo é muito dependente da China em termos de mercadorias que são produzidas lá e por isso o volume de cargas da China para o mundo é muito alto. Considerando que a maioria dos produtos produzidos na China são, em média, 30% mais baratos do que se fossem produzidos em outros países, fica difícil concorrer com a China em termos de produção. Temos também outros mercados que são grandes fornecedores de produtos como a Índia e Turquia, mas não se comparam com o volume que vem da China”. Com o mundo (no geral, mas em particular o comércio) em estado caótico e a precisar de respostas rápidas às necessidades que começaram a surgir, a China resolveu apostar num projeto de alta tecnologia e automatização dos equipamentos portuários, o que os colocou numa posição ainda mais favorável relativamente aos restantes países.

Sublinhando a importância que o governo chinês atribui a este setor da economia, Li Xiaopeng, ministro dos transportes da China, no primeiro Fórum Mundial de Comerciantes Marítimos, que aconteceu no dia 20 de outubro deste ano, garantiu que “a indústria naval desempenha um papel importante na economia do país e no comércio global, apoiando a circulação doméstica e contribuindo para a globalização económica”.

 

AUMENTO EXPONENCIAL DE PREÇOS

Mergulhados numa pandemia, a situação agravou-se ainda mais devido a um surto de casos de coronavírus nalguns dos portos mais movimentados da China, durante os meses de maio e junho deste ano. Arnon Mello explica-nos que “As razões para o aumento dos valores de frete de containers no mundo são várias, mas podemos salientar que a COVID-19 é a sua principal causa. Se um navio chegando da China no Canadá tem um funcionário a bordo que testa positivo para Covid, esse navio não pode atracar em nenhum porto Canadense e deve esperar em alto mar de 15-20 dias até que o funcionário se cure do Covid. Caso o capitão não queria esperar em alto mar, ele pode decidir levar esse navio para outro país e torcer para que até sua chegada nesse novo destino, o funcionário com Covid tenha se curado e assim descarregar nesse novo país os containers que estão a bordo. Com isso já podemos imaginar os atrasos causados quando containers destinados ao Canadá acabam sendo descarregados na Austrália, por exemplo. Uma vez na Austrália esses containers têm que esperar um novo navio para trazê-los de volta ao Canadá, criando assim um efeito cascata de atraso no supply chain.”

A título de exemplo lembramos que as autoridades da província de Guangdong, no sul da China, suspenderam o transporte de cargas e intensificaram medidas para controlar o aumento nos casos de Covid-19. Para piorar o quadro, Shanghai e Ningbo sofreram com a passagem do ciclone tropical In-Fa no dia 25 de julho deste ano, e as atividades portuárias tiveram que ser, de novo, suspensas.

Florbela Moreira - mileniostadium
Créditors: DR

As consequências deste conjunto de fatores está já hoje refletida no aumento exponencial do custo de vida do cidadão comum. Florbela Moreira, acrescenta que – “a enorme falta de equipamento (contentores para transporte marítimo de mercadorias); a diminuição muito significativa nos voos comerciais de passageiros, que criou muitas dificuldades na carga que normalmente é transportada por avião, e grande parte dessa carga passou a procurar também o transporte marítimo;  estes constrangimentos aliados à menor oferta por parte dos armadores, têm criado dificuldades ao nível da disponibilidade de contentores vazios, e o grande aumento da procura por espaço nos navios que fazem as rotas transatlânticas, não está a ser acompanhado por um aumento da disponibilidade por parte dos armadores, aumentando assim o preço dos fretes para níveis históricos, NUNCA antes vistos. O resultado foi o aumento descontrolado no preço no transporte de contentores. Aumentos que chegaram a ser de 600%, no caso de Shangai para Portugal, por exemplo. Chega-se ao cúmulo de, mesmo admitindo pagar valores exorbitantes, não se conseguir arranjar contentores vazios.”

 

LIDERANÇA MARÍTIMA

A par dos Estados Unidos da América, a China, com o crescimento que tem registado, é já hoje um dos maiores líderes mundiais do transporte marítimo internacional. E quem trabalha com este tipo de transporte não tem dúvidas sobre esta matéria: “A China é com certeza um dos maiores líderes mundiais no transporte marítimo internacional. Um outro gigante neste movimento, são como é óbvio, os Estados Unidos. A guerra comercial existente desde 2018 (principalmente devido a criação de taxas sobre as importações provenientes da China) entre estas duas superpotências tem um reflexo negativo na economia mundial, quer se queira, quer não. Existem apenas dois países no mundo com estratégias globais: China e EUA (mas isto iria levar-nos para outras discussões que nada tem a ver com este tema ). Mas esta tendência tende a diminuir, visto que os grandes produtores mundiais fora da Ásia já estão no terreno à procura de centros de produção noutras zonas geográficas (países de Leste, Marrocos, Turquia) que permitirão que esta “dependência” venha a ser cada vez menor.”, garante Florbela Moreira. Arnon Mello acha mesmo que “De certa maneira a China lidera ou controla o transporte marítimo internacional pois grande parte dos containers que circulam no mundo passam por portos chineses para ir a outros mercados. Quando um porto na China é fechado devido a Covid ou outra razão (mais recente Shanghai) os containers que deveriam sair de lá (6000 containers diários) ou transitar lá são afetados e afetam a rotação de navios e outros containers no Mundo inteiro causando assim um grande atraso e caos no supply chain Mundial. A China tem sim o poder de interromper o fluxo mundial de containers”.

 

O FUTURO

O futuro é sempre uma incógnita, mas no que toca ao setor da logística e transporte internacional há uma certeza – o futuro passará sempre pela China. Florbela Moreira, no entanto, está convencida que terão que ser procuradas alternativas ao estado atual das coisas nesta matéria –  “Boa pergunta, o que poderemos esperar do futuro? Neste momento é e será uma questão para a qual não teremos nenhuma resposta concreta, certa, afirmativa!

Somente podemos ter suposições, preparar análises de mercado, que nos possam dar algum apoio e “segurança”, embora esta última seja cada vez mais uma utopia, porque a segurança é  um pouco relativa nesta fase. Terão que ser procuradas e desenvolvidas novas formas de estar no mercado. Novas rotas, novas soluções, caso contrário dificilmente sairemos desta montanha-russa de instabilidade, que tem sido o mercado do transporte internacional”.

Já Arnon Mello relaciona o futuro mais imediato do seu setor de trabalho com o controlo da pandemia – “O futuro é incerto pois se não controlarmos a propagação da Covid-19, os atrasos de navios e fechamento de portos pelo mundo vai continuar e isso pode ser catastrófico para o movimento de mercadorias no mundo. Isso afetará a nossa vida quanto a alimentos e mercadorias que necessitamos para nosso dia-a-dia. Eu acredito que haverá uma normalização de atividades do Supply Chain daqui somente um ano. O backlog logístico causado pela Covid-19 vai demorar muito a se normalizar e até lá as empresas irão continuar a pagar preços muito altos para o transporte das suas mercadorias”.

Com este quadro fica fácil perceber que estes tempos de pandemia afetaram de forma muito significativa a vida de quem trabalha na área de logística e transporte internacional. Florbela Moreira faz-nos o balanço destes dois últimos anos, assim – “Tem sido extremamente desafiador, extenuante e por vezes até desesperante, uma vez que temos que responder às necessidades dos nossos clientes, que por sua vez já estão desesperados, devido a todas as consequências negativas que têm tido que suportar, principalmente as financeiras e as relativas aos enormes atrasos nas entregas das suas mercadorias, porque essas são e serão sempre imputadas a eles que estão na linha final de toda esta cadeia produtiva. Mas por outro lado tem sido também extremamente motivador, pois leva-nos a querer fazer mais e melhor pelos nossos clientes, pela nossa empresa e por nós próprios também. Quando? Esperamos que até setembro de 2022 se comece a ver alguma recuperação neste nosso mercado de loucos”.

Arnon Mello afirma que o trabalho diário triplicou, mas ainda assim a MELLOHAWK Logistics, tem conseguido manter elevados níveis de eficiência no atendimento das necessidades dos seus clientes – “Trabalhar na área de logística tem sido um grande desafio nesses últimos dois anos. O nosso trabalho triplicou pois devido aos cancelamentos diários de voos, rotas marítimas e catástrofes ambientais, estamos tendo que executar o mesmo trabalho três vezes para atender um único cliente.

A MELLOHAWK Logistics tem se destacado devido ao conhecimento e parcerias que estabelecemos nesses 19 anos de existência e isso tem nos ajudado a sobreviver e atender nossos clientes com eficiência, mesmo com todos os problemas mundiais. Temos trabalhado muito, mas, mesmo assim, somos muito gratos por essa oportunidade de servir nossos fiéis clientes”.

 

Catarina Balça/MS

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